Saúde • 08:22h • 12 de março de 2026
Estudo da USP identifica genes que podem prever evolução da hepatite
Rede de genes ligada aos sistemas nervoso e imunológico pode antecipar risco de câncer e até explicar sintomas como fadiga e depressão decorrente de infecção provocada por hepatite viral
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram um conjunto de genes que pode ajudar a prever como a hepatite viral evolui no organismo. A rede genética, chamada de neuroimunoma, conecta o sistema nervoso ao sistema imunológico e pode indicar desde a gravidade das lesões no fígado até o risco de desenvolvimento de câncer hepático.
O estudo, apoiado pela FAPESP e publicado na revista científica Journal of Medical Virology, analisou mais de 1.800 amostras de bancos de dados públicos de países como Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Taiwan. As análises incluíram tecidos do fígado e células do sangue infectadas por diferentes vírus da hepatite.
Segundo o pesquisador Otávio Cabral-Marques, professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do estudo, uma das descobertas foi que células de defesa do sangue passam a ativar genes normalmente ligados ao sistema nervoso.
“Isso mostra que os sistemas nervoso e imunológico não atuam de forma isolada. Eles estão conectados por uma rede de genes e moléculas que coordenam respostas no organismo, principalmente em situações de inflamação crônica, como ocorre na hepatite”, explica.
Com o uso de técnicas de aprendizado de máquina, os cientistas observaram que, à medida que a hepatite evolui para câncer de fígado, alguns desses genes passam a funcionar de forma desregulada — sendo ativados ou reduzidos em níveis diferentes.
Essa mudança pode transformar o neuroimunoma em um possível biomarcador, capaz de indicar o avanço da doença e ajudar no monitoramento da progressão do tumor.
A hepatite viral é considerada uma doença sistêmica, ou seja, pode afetar vários órgãos além do fígado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença é a segunda maior causa de morte por infecção no mundo, com cerca de 1,3 milhão de óbitos por ano.
Relação com saúde mental
Os pesquisadores também identificaram alterações em genes ligados à resposta ao estresse e à saúde mental. Um deles é o DBH, associado à produção de noradrenalina, neurotransmissor relacionado às reações de estresse do organismo.
Segundo os cientistas, o aumento da atividade desse gene em tumores mais avançados pode indicar uma relação entre o estresse e o crescimento do câncer.
Além disso, outros genes do neuroimunoma também aparecem em estudos sobre depressão e ansiedade. Para os pesquisadores, isso reforça a ideia de que existe uma forte conexão entre processos biológicos e condições emocionais.
Embora o estudo tenha sido feito com dados de pessoas infectadas por hepatite viral, os cientistas acreditam que essa interação entre sistema nervoso e imunológico pode ocorrer também em outras doenças.
No futuro, o neuroimunoma poderá ajudar não apenas a prever a gravidade da hepatite, mas também a identificar possíveis complicações psiquiátricas associadas à doença, contribuindo para diagnósticos mais precisos e tratamentos mais completos.
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