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Saúde • 11:38h • 12 de maio de 2025

Estudo da USP revela impacto da má alimentação na saúde e na longevidade

Bolacha recheada, carne suína e margarina estão entre os piores colocados; estudo estimou impacto de 33 alimentos mais populares no Brasil para a saúde e o meio ambiente

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A pizza de muçarela se destacou negativamente com o uso de mais de 306 litros de água para uma porção média de 280 gramas.
A pizza de muçarela se destacou negativamente com o uso de mais de 306 litros de água para uma porção média de 280 gramas.

Um pacote de bolacha recheada pode parecer inofensivo, mas o consumo contínuo de apenas 115 gramas desse alimento – menos de uma unidade – está associado à perda média de 39 minutos de vida saudável. O dado faz parte de um estudo inédito da Universidade de São Paulo (USP) que analisou os impactos dos alimentos mais consumidos no Brasil tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.

A pesquisa, publicada na última sexta-feira (9) na revista científica International Journal of Environmental Research and Public Health, utilizou o Índice Nutricional de Saúde (HENI), que mede o efeito da alimentação em anos de vida saudável, livres de doenças e incapacidades. O cálculo considera dados epidemiológicos e características nutricionais dos alimentos.

Foram avaliados 33 itens que mais contribuem para a ingestão calórica dos brasileiros. Além dos efeitos sobre a saúde, o estudo também estimou o impacto ambiental de cada porção, levando em conta a emissão de gases de efeito estufa e o uso de água. O trabalho é assinado por pesquisadores da USP, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU).

Os resultados mostram que alimentos ultraprocessados e de origem animal – especialmente a carne vermelha – têm os piores desempenhos, tanto para o corpo quanto para o planeta. Em contrapartida, frutas, legumes, feijão e peixes de água doce apresentam benefícios à saúde e impacto ambiental mais baixo.

“A perda de minutos não está ligada ao consumo ocasional, mas ao consumo regular desses alimentos ao longo dos anos”, explica Aline Martins de Carvalho, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP.

O índice médio no Brasil foi de -5,89 minutos por porção analisada. Entre os alimentos com maior perda de vida saudável estão:

  • Bolacha recheada: -39,69 minutos
  • Carne suína: -36,09 minutos
  • Margarina: -24,76 minutos
  • Carne bovina: -21,86 minutos
  • Biscoito salgado: -19,48 minutos

Já os alimentos com melhor desempenho foram:

  • Peixe de água doce: +17,22 minutos
  • Banana: +8,08 minutos
  • Feijão: +6,53 minutos
  • Arroz com feijão: +2,11 minutos

O impacto ambiental também impressiona. Uma porção média de pizza de muçarela, por exemplo, consome mais de 306 litros de água. Um prato com carne bovina emite mais de 21 kg de gás carbônico equivalente, enquanto uma banana libera apenas 0,1 kg e consome 14,8 litros de água.

“Nossas descobertas mostram o peso das escolhas alimentares não só na saúde individual, mas também na sustentabilidade do planeta”, dizem os autores no artigo.

Hábitos alimentares repetitivos e pouco diversos

A análise foi feita por regiões do país e apontou um padrão comum: a dieta do brasileiro é repetitiva, baseada principalmente em arroz, feijão e carnes. Além disso, o consumo de alimentos nativos e biodiversos – como raízes, frutas típicas e hortaliças regionais – é muito limitado.

As piores médias do índice foram encontradas no Norte e Nordeste, onde o consumo de carne seca, por exemplo, chegou a representar uma perda de 61,15 minutos de vida saudável. Em contraste, o açaí com granola gerou um ganho de 41,43 minutos.

Para Marhya Júlia Silva Leite, primeira autora do estudo, a mudança nos padrões alimentares exige mais do que campanhas de conscientização. “É preciso garantir que as pessoas tenham acesso constante e acessível a alimentos saudáveis, especialmente em comunidades vulneráveis”, afirma.

Produção de alimentos: um ponto-chave

O estudo também chama atenção para a diferença entre o agronegócio e a agricultura familiar. O agronegócio, segundo os autores, responde por mais de 70% do consumo de água no Brasil – principalmente com a produção de carne bovina, o alimento mais intensivo em recursos naturais. Já alimentos como feijão, mandioca, frutas e hortaliças, de menor impacto ambiental e mais nutritivos, são majoritariamente produzidos por agricultores familiares.

“Valorizar a produção local e diversificada é fundamental para criar sistemas alimentares mais justos, resilientes e sustentáveis. É também uma forma de resgatar a rica sociobiodiversidade brasileira, muitas vezes esquecida na mesa dos brasileiros”, conclui Aline de Carvalho.

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