Saúde • 14:08h • 27 de junho de 2026
Estudo detalha como o organismo se adapta a dietas com muita proteína e nenhum carboidrato
Em experimento com roedores, grupo da USP identificou as proteínas que assumem o controle do fígado para garantir a produção contínua de glicose mesmo durante o jejum
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
Quando submetido a uma dieta rica em proteínas e totalmente sem carboidratos por longos períodos, o organismo passa por uma adaptação metabólica no fígado para garantir o fornecimento contínuo de energia, inclusive durante o jejum. Um estudo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) analisou esse processo em roedores e descreveu como essa reorganização acontece em nível molecular.
A pesquisa dá continuidade a investigações iniciadas na década de 1970 pelo endocrinologista Renato Helios Migliorini, quando observações em aves carnívoras, como urubus, já indicavam a capacidade de manter níveis estáveis de glicose mesmo sem ingestão de carboidratos. A partir disso, surgiu a questão sobre como o organismo consegue sustentar a glicemia apenas com o uso de proteínas como fonte energética.
A produção de glicose pelo fígado ocorre por meio da gliconeogênese, processo que transforma aminoácidos em açúcar. Experimentos posteriores com gatos e ratos alimentados com dietas hiperproteicas confirmaram que essa capacidade também está presente em mamíferos.
Em estudos mais recentes, camundongos foram alimentados por 30 dias com uma dieta composta quase totalmente por proteínas e sem carboidratos. Ao longo do experimento, os animais mantiveram níveis de glicose mais baixos, porém estáveis, e resistiram melhor à queda de glicemia durante o jejum em comparação ao grupo controle.
Os testes mostraram ainda uma mudança no controle hormonal do fígado. Inicialmente, a produção de glicose era estimulada pelo glucagon, mas com o tempo essa via perdeu eficiência, indicando uma espécie de resistência do fígado ao hormônio. Nesse estágio, a regulação passou a depender principalmente da queda da insulina.
Após cerca de 15 dias de dieta, um fator de transcrição chamado FoxO1 assumiu o comando da produção de glicose, ativando genes ligados à conversão de aminoácidos em açúcar. Diferentemente do mecanismo anterior, esse processo depende diretamente de baixos níveis de insulina, mais comuns nesse tipo de alimentação.
Os pesquisadores observam que essa mudança representa uma reorganização do sistema metabólico do fígado, que passa de uma resposta hormonal de curto prazo para um controle mais estável e duradouro da produção de glicose. Ainda não se sabe exatamente por que essa troca ocorre, mas uma das hipóteses é a de que o novo mecanismo seja mais eficiente energeticamente.
Outro resultado importante foi a participação dos glicocorticoides, hormônios relacionados ao estresse metabólico. Quando esses hormônios foram bloqueados em animais de laboratório, os camundongos não conseguiram manter a glicemia durante o jejum, indicando que também são essenciais nessa adaptação.
Apesar dos achados, os pesquisadores alertam que não há evidências suficientes para extrapolar esses resultados diretamente para humanos, já que não existem estudos em pessoas submetidas a dietas totalmente livres de carboidratos.
O estudo reforça que o metabolismo é altamente adaptável e que compreender os mecanismos que regulam a produção de glicose pode ajudar no desenvolvimento de tratamentos para doenças como diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer.
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