Saúde • 12:06h • 04 de janeiro de 2026
Estudo identifica características de pessoas propensas a ter obsessão por alimentação saudável
Pesquisa realizada com quase 1.500 brasileiros verificou características pessoais que podem colaborar para que o comer saudável se torne um processo tão rígido que leva à ansiedade, ao isolamento social e até a desequilíbrios nutricionais
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
Manter uma rotina saudável, com alimentação equilibrada e prática regular de atividade física, é amplamente reconhecido como um fator de proteção à saúde e ao bem-estar. Em situações específicas, porém, a busca excessiva por uma alimentação considerada “perfeita” pode se tornar prejudicial.
Esse comportamento é conhecido como ortorexia nervosa, caracterizada por uma obsessão com a qualidade e a pureza dos alimentos, que pode resultar em rigidez alimentar, ansiedade, isolamento social e desequilíbrios nutricionais. O cuidado com a alimentação, nesses casos, deixa de ser benéfico e passa a gerar sofrimento.
Um estudo publicado na revista Psychology, Health & Medicine, com a participação de 1.359 brasileiros fisicamente ativos — em sua maioria mulheres, com média de 29 anos — identificou características associadas a uma relação problemática com a comida. A pesquisa analisou dois perfis distintos: pessoas com maior propensão à ortorexia nervosa e indivíduos com interesse funcional e saudável por uma alimentação equilibrada.
O levantamento foi realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), do Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com financiamento da Fapesp.
Segundo Wanderson Roberto da Silva, professor do Programa de Pós-Graduação em Alimentos, Nutrição e Engenharia de Alimentos da Unesp e coordenador do estudo, embora a ortorexia ainda não seja oficialmente classificada como um transtorno alimentar, já é considerada um comportamento disfuncional por profissionais da área clínica. A pesquisa identificou associações entre esse padrão alimentar e comportamentos indesejados, o que pode contribuir, no futuro, para estratégias de identificação e tratamento.
Entre os comportamentos mais comuns da ortorexia estão a exclusão radical de alimentos vistos como “não saudáveis”, como ultraprocessados, produtos com aditivos e açúcar adicionado, além de restrições sem justificativa médica a itens como glúten e laticínios. Nessa lógica, a alimentação passa a se basear apenas em alimentos percebidos como “puros”, como orgânicos e de origem controlada.
De acordo com o pesquisador, essa busca pela alimentação ideal pode gerar importantes desequilíbrios nutricionais e psicológicos. A limitação excessiva reduz a variedade alimentar e tende a supervalorizar proteínas, em detrimento de gorduras, fibras e carboidratos, igualmente essenciais. Além disso, a alimentação deixa de cumprir seu papel social e cultural, que envolve afeto, convivência e identidade.
O estudo aponta que o interesse saudável pela alimentação esteve associado a fatores como maior idade, prática regular de exercícios, ausência de cirurgias estéticas e uso moderado de suplementos. Já a ortorexia nervosa foi mais frequente entre mulheres, pessoas desempregadas, com histórico de transtornos alimentares e adeptas de dietas restritivas voltadas à estética.
Esses padrões, segundo Silva, indicam rigidez cognitiva e uma busca excessiva por controle, o que pode desencadear sentimentos de culpa, ansiedade e afastamento social. O desemprego também aparece como um fator agravante, ao aumentar o estresse e desorganizar a rotina diária.
Outro achado relevante foi a associação, em ambos os perfis, com a prática frequente de atividade física. Para o pesquisador, isso evidencia que comportamentos considerados saudáveis podem ter uma dupla face. O exercício é um importante aliado da saúde, mas, quando combinado com rigidez extrema e pressão estética, pode integrar um quadro problemático. No contexto brasileiro, a valorização intensa da imagem corporal tende a reforçar padrões alimentares restritivos.
Silva destaca a importância de resgatar o equilíbrio na relação com a comida. Uma alimentação verdadeiramente saudável, afirma, é aquela que nutre não apenas o corpo, mas também a mente e as relações sociais. Isso não significa buscar prazer constante em alimentos ultraprocessados, mas compreender que, em determinadas situações, a alimentação também pode cumprir funções de conforto, bem-estar e convivência.
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