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Responsabilidade Social • 10:04h • 29 de maio de 2026

Estudo identifica microplásticos e substâncias poluentes em águas profundas

Análise de sedimentos e animais que vivem entre 400 e 1.500 metros de profundidade na Bacia de Santos revelou a presença de fibras plásticas e materiais que servem como isolantes elétricos e retardantes de chamas

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1

Fibra plástica de poliacrilonitrila ingerida por pepino-do-mar da espécie Deima validum. Amostra foi analisada pelo primeiro autor do estudo, Gabriel Stefanelli-Silva
Fibra plástica de poliacrilonitrila ingerida por pepino-do-mar da espécie Deima validum. Amostra foi analisada pelo primeiro autor do estudo, Gabriel Stefanelli-Silva

Um estudo realizado com sedimentos, peixes e invertebrados marinhos encontrados entre 400 e 1.500 metros de profundidade em águas brasileiras identificou a presença de microplásticos e de poluentes orgânicos persistentes (POPs) na região da Bacia de Santos, a cerca de 140 quilômetros da costa.

A pesquisa foi publicada na revista científica Marine Pollution Bulletin e conduzida por pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).

Segundo o pesquisador Gabriel Stefanelli-Silva, primeiro autor do estudo, o trabalho representa mais um passo para compreender a presença desses contaminantes no mar profundo brasileiro. O maior desafio, segundo ele, é identificar a origem dos poluentes e entender os impactos sobre a fauna marinha de profundidade.

O estudo foi desenvolvido durante o doutorado de Stefanelli-Silva no IO-USP, com orientação do pesquisador Paulo Sumida, coordenador do Laboratório de Ecologia e Evolução de Mar Profundo da universidade.

A pesquisa também integra o projeto “Diversidade e evolução de peixes de oceano profundo (DEEP-OCEAN)”, apoiado pela FAPESP.

Entre os poluentes analisados estavam os PCBs, compostos usados como isolantes elétricos, e os PBDEs, utilizados como retardantes de chama.

Nos sedimentos marinhos, os pesquisadores encontraram apenas PCBs. Já nas amostras de peixes, foram detectadas as duas categorias de poluentes persistentes.

Entre as espécies analisadas estão Parasudis truculenta, Hoplostethus occidentalis, Coelorinchus marinii e Neoscopelus macrolepidotus.

As coletas foram realizadas durante dois cruzeiros científicos do navio oceanográfico Alpha Crucis, da USP, em setembro e novembro de 2019.

Nos invertebrados marinhos, os cientistas investigaram especificamente a presença de microplásticos, fragmentos plásticos menores que 5 milímetros.

De acordo com Stefanelli-Silva, mesmo quando a poluição plástica se origina na costa, as partículas acabam chegando ao mar profundo, considerado todo o ambiente marinho abaixo dos 200 metros de profundidade.

Espécies que se alimentam de detritos do fundo do mar ou filtram partículas da água estão entre as mais vulneráveis à ingestão desses materiais.

Entre as nove espécies de invertebrados estudadas, o pepino-do-mar Deima validum foi o que apresentou maior quantidade de microplásticos no sistema digestivo.

Os pesquisadores identificaram fibras classificadas como microplásticos formadas por materiais como poliamida e poliacrilonitrila, comuns na indústria têxtil.

Também foram encontrados compostos como poliariletercetona, poliestireno e polissulfeto, materiais usados em plásticos resistentes e borrachas sintéticas. Segundo os cientistas, há a possibilidade de que parte dessa contaminação esteja relacionada às atividades da indústria offshore na Bacia de Santos, onde atualmente operam cinco plataformas e outras seis estão previstas até 2027.

Para evitar contaminação das amostras durante a pesquisa, os cientistas adotaram protocolos rigorosos, utilizando roupas e equipamentos sem fibras sintéticas e realizando controle constante da presença de microplásticos no ambiente de análise.

Os pesquisadores destacam que este é um levantamento inicial e que novos estudos ainda serão necessários para aprofundar o entendimento sobre a contaminação do mar profundo brasileiro.

Em uma pesquisa anterior, os mesmos cientistas analisaram organismos coletados na Antártica entre 1984 e 2016 e encontraram o registro mais antigo de microplásticos na região: uma fibra de pouco mais de 2 milímetros localizada nas vísceras de um pequeno crustáceo coletado em 1986.

Segundo Paulo Sumida, apesar das dificuldades e do alto custo das pesquisas em grandes profundidades, o monitoramento do mar profundo é fundamental para compreender os impactos das atividades humanas sobre ambientes considerados remotos.

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