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Educação • 15:24h • 08 de maio de 2026

Estudo revela que 53% das famílias raramente leem para criança

Desigualdade na aprendizagem está presente desde a educação infantil

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1

O pesquisador entende que o ponto central é que a importância da leitura compartilhada ainda não está clara para a população como parte importante do processo de alfabetização de uma criança. Além disso, a falta deste vínculo traz impactos negativos ao desenvolvimento infantil.
O pesquisador entende que o ponto central é que a importância da leitura compartilhada ainda não está clara para a população como parte importante do processo de alfabetização de uma criança. Além disso, a falta deste vínculo traz impactos negativos ao desenvolvimento infantil.

Um estudo internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado na terça-feira (5), revela que 53% das famílias brasileiras nunca ou raramente leem livros para crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três estados analisados: Ceará, Pará e São Paulo. Apenas 14% dos responsáveis realizam leitura compartilhada entre três e sete vezes por semana, enquanto a média internacional é de 54%.

Os dados fazem parte do relatório Aprendizagem, bem-estar e desigualdades na primeira infância em três estados brasileiros, baseado no estudo International Early Learning and Child Well-being Study (IELS). O coordenador da pesquisa e integrante do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da UFRJ, Tiago Bartholo, afirma que o cenário é preocupante inclusive entre famílias de maior renda, onde a leitura frequente não chega a 25%.

Segundo o pesquisador, ainda falta compreensão sobre o papel da leitura compartilhada no desenvolvimento infantil e na alfabetização. A ausência desse hábito pode afetar o bem-estar e o desenvolvimento das crianças, além de enfraquecer vínculos importantes. Para ele, os resultados apontam a necessidade de ampliar políticas públicas e programas que incentivem a participação das famílias na educação infantil, fortalecendo a relação entre casa e escola.

O estudo ouviu 2.598 crianças de 5 anos, distribuídas em 210 escolas — 80% públicas e 20% privadas — nos três estados. A pesquisa avaliou dez domínios organizados em três áreas: aprendizagens fundamentais (linguagem e matemática), funções executivas (como atenção, memória e autocontrole) e habilidades socioemocionais (empatia, confiança e relações sociais). A coleta de dados foi feita por meio de atividades lúdicas com as crianças, além de questionários aplicados a famílias e professores.

No campo da linguagem, o Brasil apresentou desempenho levemente acima da média internacional, com 502 pontos em literacia emergente. Já em numeracia, que envolve habilidades matemáticas iniciais, o país ficou abaixo da média global, com 456 pontos, evidenciando desigualdades entre crianças de diferentes níveis socioeconômicos.

O estudo também destacou disparidades relacionadas a raça, gênero e renda. Crianças pretas, pardas, indígenas e de famílias de menor renda apresentaram piores resultados em diversas áreas, especialmente em matemática e memória de trabalho. A diferença entre crianças brancas e pretas chegou a 40 pontos em numeracia.

Outro ponto de atenção é o uso de telas. Mais da metade das crianças (50,4%) utiliza dispositivos digitais diariamente, índice acima da média internacional. Ao mesmo tempo, 62% raramente usam esses recursos para atividades educativas. Segundo os pesquisadores, o uso excessivo de telas está associado a piores resultados em leitura, escrita e matemática, especialmente quando não há mediação adequada.

O levantamento também aponta que apenas 37% das famílias realizam atividades ao ar livre com frequência, enquanto 29% quase nunca o fazem. Atividades externas, como brincadeiras, visitas a espaços culturais e práticas esportivas, são consideradas essenciais para o desenvolvimento físico, cognitivo e social das crianças.

Além disso, interações importantes dentro de casa, como cantar, brincar, desenhar ou contar histórias, ocorrem com menor frequência no Brasil. Conversas sobre sentimentos também são menos comuns do que na média internacional, embora mais da metade das famílias relate abordar o tema ao menos algumas vezes por semana.

As funções executivas — como memória, atenção e controle de impulsos — também apresentaram desempenho abaixo da média internacional, com destaque para a memória de trabalho, que mostrou forte relação com o nível socioeconômico.

O Brasil foi o único país da América Latina a participar desta edição do estudo, que também inclui nações como Bélgica, China, Coreia do Sul, Holanda e Inglaterra. Os resultados devem servir de base para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à primeira infância, com foco em educação, saúde e proteção social.

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