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Saúde • 14:30h • 13 de abril de 2026

Exame de sangue associado à IA abre caminho para diagnóstico precoce da hanseníase

Pesquisadores da USP analisaram uma molécula capaz de identificar novos casos da doença antes do surgimento de lesões mais graves

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1

Para chegar aos resultados, os pesquisadores convidaram as cerca de 700 pessoas incluídas no inquérito populacional sobre Covid-19 a integrar o estudo sobre hanseníase
Para chegar aos resultados, os pesquisadores convidaram as cerca de 700 pessoas incluídas no inquérito populacional sobre Covid-19 a integrar o estudo sobre hanseníase

Um exame de sangue aliado a um questionário clínico e a uma ferramenta de inteligência artificial pode transformar o diagnóstico da hanseníase no Brasil. A estratégia, testada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), mostrou potencial para identificar a doença de forma mais precoce, ainda em fases iniciais, quando os sintomas são discretos e os exames tradicionais costumam falhar.

O método foi desenvolvido por cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), com apoio da Fapesp, e publicado na revista BMC Infectious Diseases. A proposta surgiu diante das dificuldades históricas no diagnóstico da doença, que ainda carece de testes laboratoriais mais sensíveis e de maior preparo dos profissionais de saúde para reconhecer seus sinais iniciais.

Para avançar nesse desafio, os pesquisadores aproveitaram amostras de sangue coletadas durante um inquérito sobre Covid-19 em Ribeirão Preto. A partir desse material, buscaram identificar pessoas possivelmente expostas ao bacilo da hanseníase, ampliando as chances de detectar casos precocemente.

A triagem combinou duas abordagens. A primeira foi um questionário clínico com 14 perguntas focadas em sintomas neurológicos, aprimorado por um sistema de inteligência artificial. A segunda foi um exame de sangue capaz de detectar anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína do Mycobacterium leprae que facilita a infecção nas células humanas.

Diferente do teste tradicional, que avalia apenas um tipo de anticorpo, o novo exame analisa três classes (IgA, IgM e IgG), aumentando a sensibilidade e permitindo distinguir entre exposição, infecção ativa e contato prévio com a bactéria. Isso possibilita identificar a doença antes do surgimento de lesões mais evidentes.

No estudo, cerca de 700 pessoas foram convidadas a participar, das quais 224 responderam ao questionário e 195 realizaram exames de sangue. Dessas, 37 passaram por avaliação clínica presencial. O cruzamento dos dados revelou 12 novos casos de hanseníase — muitos deles em pessoas que não apresentavam sintomas claros e desconheciam a infecção.

Entre os marcadores analisados, o anticorpo IgM contra o Mce1A apresentou melhor desempenho, identificando a maioria dos casos confirmados. Quando combinado com a inteligência artificial, o método atingiu 100% de sensibilidade na triagem dos casos suspeitos.

Os pesquisadores ressaltam que o exame de sangue não substitui o diagnóstico clínico, mas funciona como uma importante ferramenta para indicar quem deve ser encaminhado a um especialista. Além disso, o custo é semelhante ao dos testes já utilizados e a aplicação é simples, podendo ser realizada em laboratórios convencionais.

O estudo também incluiu análise geográfica dos casos, que apontou uma distribuição dispersa da doença, sem concentração em áreas específicas, indicando que a hanseníase atinge diferentes perfis da população.

A doença, que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos, pode causar manchas, perda de sensibilidade e fraqueza muscular. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 200 mil novos casos são registrados anualmente no mundo. O Brasil ocupa a segunda posição global, atrás apenas da Índia, concentrando a maior parte das notificações nas Américas.

O tratamento é feito com antibióticos por períodos que variam de seis meses a um ano. Atualmente, a hanseníase é considerada uma doença determinada socialmente, refletindo fatores como acesso à saúde e condições de vida.

Como próximos passos, os pesquisadores pretendem validar o método em larga escala e viabilizar sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). Também estão em andamento estudos para tornar o teste ainda mais preciso, analisando fragmentos específicos da proteína Mce1A.

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