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Variedades • 15:13h • 14 de junho de 2026

Fauna das Américas ajudou a transformar teorias sobre a origem e a distribuição dos animais no mundo

Animais como preguiça, tatu, tamanduá e anta desafiaram as explicações europeias dos séculos 16 a 18 sobre a natureza e contribuíram para mudanças importantes na forma de compreender a distribuição das espécies pelo planeta

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações da Fiocruz | Foto: Imagem da Biblioteca de Obras Raras da Fiocruz

Ilustração de preguiça na obra Historiae Naturalis Brasilie, de Willem Piso e Georg Marcgraf
Ilustração de preguiça na obra Historiae Naturalis Brasilie, de Willem Piso e Georg Marcgraf

Muito antes do surgimento da biologia e da geografia como áreas científicas consolidadas, a descoberta da fauna das Américas provocou uma profunda revisão das ideias europeias sobre a origem e a dispersão dos seres vivos. Animais como preguiças, tatus, tamanduás, quatis e antas apresentavam características tão diferentes das conhecidas pelos naturalistas da época que colocaram em dúvida explicações tradicionais baseadas em interpretações bíblicas.

A conclusão faz parte de uma pesquisa desenvolvida pela historiadora Rebeca Capozzi, no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O estudo analisa como, entre os séculos 16 e 18, os animais encontrados no continente americano influenciaram a construção do conhecimento sobre a distribuição das espécies na Terra.

No início da era moderna, era comum entre os europeus a crença de que regiões distantes da Europa, especialmente áreas tropicais, eram habitadas por criaturas exóticas e até monstruosas. Essa visão aparecia em bestiários, obras que descreviam animais reais e imaginários. Um exemplo é uma publicação inglesa de 1607 que definia a preguiça como uma criatura extremamente deformada.

Com a chegada dos europeus às Américas, a observação direta de espécies desconhecidas começou a desafiar essas interpretações. Os naturalistas perceberam que muitos desses animais possuíam formas, comportamentos e adaptações que não se encaixavam nos modelos tradicionais utilizados para explicar a natureza.

Segundo a pesquisadora, a enorme diversidade de espécies encontradas no Novo Mundo impulsionou uma reavaliação das teorias bíblicas que defendiam que todos os seres vivos teriam se espalhado a partir de um único ponto de origem, como o Jardim do Éden ou a Arca de Noé.

A pesquisa destaca o papel de importantes estudiosos da natureza, entre eles o médico holandês Willem Piso, o naturalista alemão Georg Marcgraf, o sueco Carl von Linné, considerado o pai da taxonomia moderna, o francês Conde de Buffon e o zoólogo alemão Eberhard Wilhelm von Zimmermann.

A circulação de informações sobre a fauna americana teve papel decisivo no trabalho de Linné, responsável por criar o sistema de classificação biológica utilizado até hoje. Seu método organizou os seres vivos com base em características anatômicas e estabeleceu a nomenclatura científica formada por gênero e espécie, permitindo uma padronização internacional da identificação dos organismos.

Com esse sistema, os naturalistas passaram a considerar não apenas a aparência dos animais, mas também sua localização geográfica, suas semelhanças e diferenças em relação a espécies de outras partes do mundo. Isso ajudou a consolidar uma nova forma de compreender a biodiversidade.

Os estudos também mostraram que muitos animais americanos dependiam de condições específicas de habitat, alimentação e clima para sobreviver, algo que dificultava sua adaptação em outras regiões. Essa constatação fortaleceu a ideia de que a distribuição das espécies estava relacionada ao ambiente em que viviam, e não apenas a uma origem comum determinada por explicações religiosas.

Na tese, Rebeca Capozzi descreve diversos mamíferos americanos como animais “desobedientes”, por resistirem aos modelos explicativos predominantes da época. Espécies como o tatu chegaram a ser confundidas com pangolins africanos, principalmente porque muitos exemplares eram analisados apenas após serem empalhados, sem observação de seus hábitos naturais.


Novus Brasiliae Tipus, de Willem Janszoon Blaeu (Imagem: Biblioteca Nacional)

A partir do século 18, novas interpretações começaram a ganhar força. O zoólogo alemão Eberhard Wilhelm von Zimmermann passou a defender que a distribuição geográfica dos animais estava relacionada a fatores como alimentação, reprodução, clima e latitude. Sua visão se afastava das teorias bíblicas tradicionais e ajudou a lançar as bases da zoogeografia moderna.

Em 1777, Zimmermann publicou a chamada Tábula Zoológica, considerada o primeiro grande mapa da distribuição dos mamíferos no planeta. O trabalho demonstrou que algumas espécies estavam espalhadas por diversas regiões, enquanto outras eram exclusivas de determinados ambientes, reforçando a influência das condições naturais sobre a presença dos animais.

A pesquisa também destaca a importância da obra Historia Naturalis Brasiliae, publicada em 1648 por Willem Piso e Georg Marcgraf após suas expedições ao Brasil durante o período holandês. O livro se tornou uma das principais referências sobre a fauna e a flora brasileiras e exerceu forte influência nos estudos que ajudaram a transformar a compreensão científica sobre a diversidade da vida na Terra.

Para a historiadora, a trajetória desses estudos mostra que os animais não foram apenas objetos de observação, mas agentes que contribuíram diretamente para mudanças no pensamento científico. Ao desafiarem teorias estabelecidas, espécies das Américas ajudaram a construir novas formas de entender a natureza e a distribuição da vida no planeta.

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