Mundo • 19:46h • 16 de julho de 2026
França, Espanha, Inglaterra e Argentina: a rivalidade da Copa começou muito antes do futebol
Guerras, impérios, colonização e influência cultural aproximam os quatro semifinalistas da Copa do Mundo em uma história que atravessa séculos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Central Press | Foto: Arquivo/Âncora1
A reta final da Copa do Mundo de 2026 reuniu quatro seleções que protagonizaram uma das fases mais marcantes da história do torneio. Mas França, Espanha, Inglaterra e Argentina compartilham rivalidades e conexões que começaram muito antes da criação do futebol. Ao longo de séculos, esses países disputaram territórios, formaram impérios, influenciaram idiomas, moldaram cidades e ajudaram a construir parte do mundo contemporâneo.
Segundo o mestre em Educação e professor de História do Curso Positivo, Renato Mocellin, as seleções representam muito mais do que tradições esportivas. "Quando observamos França, Inglaterra, Espanha e Argentina, estamos olhando para países cujas trajetórias se cruzaram em diversos momentos decisivos da história. O futebol acaba funcionando como um símbolo contemporâneo de relações que começaram séculos antes, envolvendo disputas por território, influência política, comércio e identidade nacional."
Guerras mudaram fronteiras e influenciaram o mundo
Muito antes da bola rolar, franceses e ingleses protagonizaram um dos conflitos mais conhecidos da Europa: a Guerra dos Cem Anos, travada entre 1337 e 1453. O confronto ajudou a consolidar as identidades nacionais dos dois países e alterou o equilíbrio político do continente.
Enquanto isso, a Espanha construía um dos maiores impérios da história durante as Grandes Navegações, expandindo sua influência pelas Américas e levando consigo o idioma espanhol, a religião católica e modelos administrativos que permanecem presentes em diversos países latino-americanos.
A Inglaterra, por sua vez, fortaleceu seu domínio marítimo e comercial, formando posteriormente o maior império da era moderna. França e Espanha alternaram períodos de guerras e alianças na disputa pela hegemonia europeia.
A Argentina entrou nesse cenário como colônia espanhola até conquistar sua independência, em 1816. Nas décadas seguintes, recebeu milhões de imigrantes europeus, principalmente espanhóis, italianos, franceses e britânicos, processo que ajudou a construir sua identidade cultural.
Da Guerra das Malvinas aos confrontos em Copas
Uma das rivalidades mais conhecidas envolve Argentina e Inglaterra. Em 1982, os dois países travaram a Guerra das Malvinas, conflito que deixou marcas profundas em ambos os lados.
Quatro anos depois, voltaram a se enfrentar nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986. A partida entrou para a história pelos dois gols de Diego Maradona: a polêmica "Mão de Deus" e um dos gols mais emblemáticos já vistos em Mundiais.
Para Renato Mocellin, esses confrontos esportivos carregam uma memória histórica construída ao longo de séculos. "Esses países estiveram envolvidos em guerras, processos de colonização, movimentos de independência e transformações que redesenharam fronteiras e influenciaram a política mundial. O futebol acaba resgatando, de forma simbólica, parte dessa memória histórica."
Idiomas que conquistaram continentes
Além das disputas militares, França, Espanha e Inglaterra exerceram enorme influência por meio da linguagem.
O francês consolidou-se como idioma tradicional da diplomacia internacional. O espanhol tornou-se uma das línguas mais faladas do planeta após a colonização das Américas. Já o inglês transformou-se no principal idioma dos negócios, da ciência, da tecnologia e da comunicação global.
Embora compartilhe o espanhol com outros países latino-americanos, a Argentina desenvolveu características próprias na língua, refletidas no sotaque, nas expressões e na forte produção cultural.
Segundo o professor de Geografia Eduardo Berkenbrock Lopes, a expansão de um idioma também representa influência econômica e cultural. "Quando uma língua se expande, ela leva junto formas de pensar, modelos educacionais, referências culturais e relações econômicas."
As cidades também contam essa história
As marcas dessa convivência secular podem ser vistas na arquitetura e no planejamento urbano.
Buenos Aires, por exemplo, passou por uma ampla transformação entre o fim do século XIX e o início do século XX inspirada em Paris, com grandes avenidas, parques e edifícios em estilo francês.
Em diversas cidades da América Latina permanecem traços da ocupação espanhola, enquanto projetos ferroviários e industriais refletem a influência britânica.
"As cidades funcionam como documentos históricos. Quando observamos Buenos Aires, percebemos claramente referências francesas. Da mesma forma, inúmeras cidades latino-americanas preservam vestígios da ocupação espanhola. A paisagem urbana revela essas conexões históricas", destaca Eduardo Berkenbrock Lopes.
A disputa pela influência continua na cultura
Mesmo depois do fim das grandes disputas territoriais, França, Espanha, Inglaterra e Argentina continuaram exercendo influência mundial por meio da cultura.
A França tornou-se referência em gastronomia, moda e cinema. A Inglaterra exportou literatura, música e ciência. A Espanha difundiu tradições culturais que permanecem vivas em diferentes continentes. Já a Argentina levou ao mundo o tango, a literatura de Jorge Luis Borges e o futebol como parte de sua identidade nacional.
Hoje, enquanto as quatro seleções disputaram duas vagas na decisão da Copa do Mundo de 2026, o confronto dentro de campo representa apenas o capítulo mais recente de uma história construída ao longo de centenas de anos.
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