Responsabilidade Social • 18:39h • 20 de junho de 2026
Futebol além da visão: como pessoas cegas e com baixa visão acompanham a emoção dos jogos
Audiodescrição, transmissões de rádio e recursos de acessibilidade permitem que milhões de brasileiros vivenciem a paixão pelo futebol de forma mais inclusiva
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação
Em períodos de grandes competições, como a Copa do Mundo, o futebol mobiliza torcedores de diferentes idades, culturas e regiões do planeta. A emoção de um gol, a tensão de uma decisão e a atmosfera criada pelas torcidas fazem parte de uma experiência que, para a maioria das pessoas, é fortemente associada às imagens. Mas para quem tem deficiência visual, a paixão pelo esporte também pode ser construída por sons, sensações e recursos de acessibilidade que permitem acompanhar cada lance de forma significativa.
Seja em casa, em espaços públicos ou nos estádios, pessoas cegas ou com baixa visão utilizam diferentes estratégias para acompanhar as partidas. Entre elas estão ajustes de contraste, ampliação de telas, aplicativos acessíveis, posicionamento diferenciado em arenas esportivas e, principalmente, recursos que complementam a experiência auditiva.
Segundo Silverlei Silvestre, professor de Orientação e Mobilidade da Laramara - Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual, a audiodescrição tem desempenhado papel fundamental nesse processo de inclusão.
“A audiodescrição é mais do que simplesmente narrar imagens. Ela transforma cada lance em uma experiência mais completa. Com esse recurso, pessoas com deficiência visual conseguem perceber detalhes que normalmente não seriam identificados apenas pela narração convencional”, explica.
Audiodescrição amplia a experiência do torcedor
A audiodescrição funciona como uma camada adicional de informação durante as transmissões. Além da narração esportiva tradicional, o recurso descreve elementos visuais importantes para a compreensão da partida. Entre as informações transmitidas estão: Movimentação da bola em campo; Posicionamento dos jogadores; Expressões faciais; Comemorações; Cartões e substituições; Reações da torcida e do ambiente.
Segundo especialistas, a ferramenta amplia a autonomia dos torcedores e fortalece o sentimento de pertencimento em eventos esportivos de grande alcance.
Para Silverlei, discutir acessibilidade no futebol também significa discutir participação social e acesso à cultura. “A inclusão vai muito além da presença física nos estádios. Quando faltam recursos acessíveis em transmissões, aplicativos e plataformas digitais, muitas pessoas acabam sendo excluídas de experiências que fazem parte da cultura brasileira”, afirma.
O rádio continua sendo um aliado importante
Mesmo com o avanço da tecnologia, o rádio permanece como um dos meios mais eficientes para acompanhar partidas de futebol. Isso acontece porque as transmissões radiofônicas costumam apresentar uma narração mais dinâmica e detalhada, descrevendo constantemente a movimentação dos jogadores, a posição da bola e o contexto da partida.
Para muitos torcedores com deficiência visual, esse formato oferece uma experiência rica e envolvente, permitindo construir mentalmente cada jogada a partir das informações transmitidas.
Nos últimos anos, clubes, emissoras e organizadores de competições também passaram a investir em iniciativas de acessibilidade esportiva. Em algumas arenas, por exemplo, torcedores utilizam fones conectados a equipes especializadas que realizam a descrição detalhada dos acontecimentos em campo em tempo real.
Inclusão também faz parte do espetáculo
Apesar dos avanços, especialistas apontam que os recursos de acessibilidade ainda não estão presentes em todos os campeonatos e transmissões esportivas. Em competições menores, estaduais ou regionais, a oferta dessas ferramentas ainda é limitada.
Para quem convive com deficiência visual, porém, o futebol representa muito mais do que entretenimento. Assim como para qualquer torcedor, o esporte também é um espaço de convivência, emoção, identidade cultural e integração social.
“Garantir acessibilidade no futebol significa assegurar que milhões de brasileiros possam torcer, vibrar e compartilhar emoções em condições de igualdade. A paixão pelo esporte deve ser acessível a todos”, conclui Silverlei.
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