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Ciência e Tecnologia • 15:33h • 23 de outubro de 2025

Golfinhos, onças e antas: a corrida pela conservação da biodiversidade paranaense

Monitoramentos inéditos do programa Biodiversidade Litoral do Paraná apontam riscos crescentes e caminhos para a conservação de espécies únicas no país

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Assessoria | Foto: Divulgação

Por que a megafauna marinha e os grandes mamíferos terrestres do litoral do Paraná estão ameaçados de extinção
Por que a megafauna marinha e os grandes mamíferos terrestres do litoral do Paraná estão ameaçados de extinção

O litoral do Paraná, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade e parte da Grande Reserva Mata Atlântica, abriga uma das faunas mais ricas e sensíveis do planeta. Entre manguezais, florestas e águas costeiras, a região é berçário de baleias, golfinhos, tartarugas, onças, antas e aves raras, que hoje enfrentam pressões crescentes por perda de habitat, poluição, caça e mudanças climáticas.

Com apoio do programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), diferentes projetos vêm reunindo dados inéditos sobre o estado de conservação dessas espécies. O programa fortalece Unidades de Conservação (UCs), fomenta pesquisas científicas e promove o uso sustentável dos recursos naturais, integrando ciência, gestão ambiental e comunidades tradicionais.

Megafauna marinha: a saúde do oceano e a nossa

Entre os projetos apoiados pelo BLP está o MegaCoast-PR, coordenado pela Associação MarBrasil, que monitora golfinhos, baleias, tartarugas, aves e tubarões. A iniciativa utiliza ferramentas de ponta, como o DNA ambiental, técnica que identifica espécies por meio de fragmentos genéticos presentes na água.


Tapirus terrestris | Divulgação

A pesquisadora Camila Domit, do Laboratório de Ecologia e Conservação (LEC/UFPR) e da MarBrasil, explica que o método já revelou resultados preocupantes. “Detectamos bactérias com alta resistência a antibióticos. Isso nos faz discutir a relação entre a saúde do ecossistema, da fauna e dos seres humanos. Golfinhos, por exemplo, são sentinelas ambientais: se eles adoecem, nós também estamos vulneráveis.”

Outro destaque é o rastreamento acústico de animais marinhos, realizado com o Projeto Meros do Brasil, que conecta o Paraná a uma rede nacional de telemetria. O sistema permite acompanhar deslocamentos de espécies migratórias — como tubarões, raias e tartarugas — e identificar áreas prioritárias para conservação, fornecendo subsídios a políticas públicas e tratados internacionais.


Tayassu pecari | Divulgação

Além da pesquisa científica, o MegaCoast também aposta na ciência cidadã. “Qualquer pessoa pode contribuir registrando avistagens de golfinhos, baleias ou tartarugas em nosso site ou no perfil @lecufpr. Esses dados aproximam comunidades pesqueiras da conservação e fortalecem o conhecimento local sobre a biodiversidade”, afirma Camila.

O diálogo com pescadores artesanais e comunidades tradicionais é essencial. “As mesmas áreas de alta produtividade pesqueira são áreas de alimentação da fauna marinha. Nosso papel é construir soluções que conciliem conservação, segurança alimentar e modos de vida tradicionais”, complementa a pesquisadora.

Grandes mamíferos terrestres: sentinelas da floresta

Em terra firme, o projeto Monitora Serra do Mar, executado pelo Instituto de Pesquisas Cananeia (IPeC) e pelo Instituto Manacá, com apoio do BLP, acompanha espécies emblemáticas da Mata Atlântica, como onça-pintada, onça-parda, anta e queixada. Todas estão ameaçadas no Paraná, e três delas já são classificadas como criticamente ameaçadas.


Onça pintada | Divulgação

“O desaparecimento desses animais indica o nível de degradação da floresta. A anta, por exemplo, praticamente sumiu das áreas de terras baixas, e a onça-pintada sobrevive apenas em regiões remotas da Serra do Mar”, explica Roberto Fusco, coordenador do Monitora Serra do Mar.

As espécies são chamadas de guarda-chuva, pois sua proteção garante a conservação de diversos outros organismos e do próprio ecossistema. “Em áreas com fiscalização mais intensa, já observamos sinais de recuperação populacional. Esses dados orientam planos de soltura e manejo, especialmente para antas e queixadas”, afirma Fusco.

Tecnologia, comunidades e políticas públicas

A tecnologia é aliada central da conservação. O projeto utiliza a plataforma SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tools), que permite registrar, em tempo real, avistamentos de fauna, trilhas de caça e atividades ilegais. No Paraná, o sistema foi integrado ao Programa Monitora, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e aplicado por gestores e agentes de campo treinados em armadilhas fotográficas e coleta digital de dados.


Tecnologia SMART | Divulgação

“Quando capacitamos moradores locais para participar do monitoramento, criamos os Agentes de Monitoramento, que ampliam a vigilância, combatem a caça ilegal e ainda geram renda nas comunidades”, destaca Fusco.

Para Camila Domit, o impacto do BLP vai além da pesquisa. “Os dados produzidos orientam decisões públicas e privadas. É sobre harmonizar diferentes usos do território sem perder de vista a vida que depende dele”, reforça.

Ameaça e esperança

Os resultados do BLP mostram que, embora a pressão sobre a fauna do litoral paranaense seja crescente, também existem sinais de recuperação em áreas protegidas e de engajamento comunitário. A integração entre ciência, tecnologia, gestão e participação social vem se consolidando como um dos caminhos mais promissores para evitar a extinção da megafauna marinha e terrestre.

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