Ciência e Tecnologia • 12:29h • 17 de junho de 2026
IA não “pensa”: educadores querem que escolas ensinem os bastidores da inteligência artificial
Com ferramentas como ChatGPT e Gemini cada vez mais presentes na rotina dos estudantes, educadores alertam para a importância de desenvolver pensamento crítico e alfabetização digital
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
A inteligência artificial já faz parte do dia a dia de milhões de estudantes brasileiros. Ferramentas como ChatGPT, Gemini e outros assistentes generativos deixaram de ser novidade e passaram a ser utilizadas em pesquisas, estudos e até na organização das atividades escolares. Diante desse cenário, especialistas defendem que a escola dê um passo além: ensinar não apenas a usar essas plataformas, mas também a compreender como elas funcionam.
A proposta é formar alunos capazes de utilizar a tecnologia de maneira crítica e consciente, entendendo seus limites, riscos e possibilidades. Segundo especialistas da Start by Alura, solução pedagógica voltada à educação digital, esse conhecimento será tão importante para as novas gerações quanto aprender a interpretar textos ou realizar cálculos matemáticos.
Entender a IA é desenvolver pensamento crítico
Para Marcelo Paludetto, especialista em Inovação e Conteúdo da Start by Alura, um dos principais desafios atuais é desfazer a ideia de que a inteligência artificial “pensa” ou possui consciência semelhante à humana.
“O estudante precisa entender que a IA não pensa, não possui consciência e não toma decisões como um ser humano. Ela opera a partir de padrões, dados e probabilidades. Quando esse entendimento acontece, a relação com a tecnologia muda completamente, porque o aluno passa a questionar respostas, identificar limitações e desenvolver pensamento crítico”, explica.
Na prática, modelos de linguagem como o ChatGPT funcionam a partir do treinamento com grandes volumes de dados. Em vez de refletir sobre uma pergunta, o sistema calcula probabilidades e prevê quais palavras e informações têm maior chance de compor uma resposta coerente.
Esse funcionamento também ajuda a explicar por que ferramentas de IA podem apresentar erros, imprecisões ou até reproduzir preconceitos e vieses existentes nos dados utilizados durante seu treinamento.
Uso cresce entre os jovens brasileiros
O debate ocorre em um momento de forte expansão da conectividade no país. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2024) mostram que quase 90% dos brasileiros com 10 anos ou mais utilizam o celular para acessar a internet, o equivalente a aproximadamente 167,5 milhões de pessoas.
Com isso, milhões de estudantes já têm contato frequente com recursos de inteligência artificial antes mesmo de receber qualquer orientação pedagógica estruturada sobre o tema.
Para especialistas, a discussão deixou de ser se a IA deve ou não entrar na sala de aula. O desafio agora é preparar os jovens para compreender como esses sistemas funcionam e de que maneira influenciam a produção de conteúdo, a comunicação e a tomada de decisões no ambiente digital.
IA passa a ser também objeto de estudo
A proposta de aprofundar o ensino sobre inteligência artificial acompanha as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) voltadas à Computação, que incluem competências relacionadas ao pensamento computacional, cultura digital e resolução lógica de problemas.
Segundo Paludetto, compreender conceitos como algoritmos, treinamento de dados e funcionamento dos modelos matemáticos permite que os estudantes desenvolvam uma relação mais crítica com a tecnologia.
“O pensamento computacional não serve apenas para formar programadores. Ele ajuda o estudante a estruturar raciocínio, interpretar problemas e entender que toda IA funciona a partir de instruções, dados e modelos matemáticos. A partir do momento em que você entende como um computador ‘pensa’, você consegue ensiná-lo, inclusive elaborando melhores comandos para as ferramentas de IA”, afirma.
Em algumas instituições de ensino, a inteligência artificial já começa a ser tratada não apenas como ferramenta de apoio, mas também como tema de estudo. Em aulas de Ciências e Matemática, por exemplo, alunos podem explorar conceitos ligados ao treinamento de modelos, enquanto em Língua Portuguesa a tecnologia pode ser usada para analisar textos gerados por IA, identificar inconsistências e discutir vieses e ausência de contexto.
Formação para o mundo digital
Para especialistas em educação, o avanço da inteligência artificial exige uma mudança na forma como a escola prepara os alunos para o futuro. Mais do que ensinar a operar plataformas digitais, será necessário desenvolver habilidades para interpretar informações, questionar respostas automáticas e compreender os impactos sociais e tecnológicos dos algoritmos.
Nesse cenário, a alfabetização digital ganha um novo significado: formar cidadãos capazes de utilizar a inteligência artificial como ferramenta de apoio, sem abrir mão da análise crítica e da autonomia intelectual.
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