Ciência e Tecnologia • 13:35h • 11 de fevereiro de 2026
IA offline surge como alternativa para levar tecnologia avançada à educação pública
Pesquisadores brasileiros desenvolvem conceito que adapta inteligência artificial a escolas com infraestrutura digital limitada
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Experta Media | Foto: Divulgação
A Inteligência Artificial vem ganhando espaço no debate educacional como ferramenta capaz de transformar processos de ensino e aprendizagem. No entanto, a realidade de muitas escolas públicas brasileiras ainda é marcada por limitações de infraestrutura, conectividade instável e escassez de equipamentos. Para enfrentar esse desafio, pesquisadores do Instituto de Inteligência Artificial na Educação, vinculado ao Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais da UFAL, desenvolveram o conceito inédito de Inteligência Artificial Desplugada na Educação, a IAED-U.
Testada em projetos-piloto conduzidos pelo instituto, a proposta tem apresentado resultados positivos, especialmente na melhoria das habilidades de escrita de estudantes da educação básica, sem aumento da carga de trabalho docente. A iniciativa parte do reconhecimento das desigualdades sociais e digitais do país. Dados da pesquisa TIC Educação indicam que, embora 96% das escolas brasileiras tenham algum acesso à internet, a qualidade e a disponibilidade desse acesso seguem desiguais.
“IA Desplugada na Educação”
O conceito foi apresentado na Nota Técnica “IA Desplugada na Educação”, lançada em parceria com a Fundação Tellescom. O documento detalha estratégias para implementar soluções de IA em contextos com infraestrutura limitada, adaptando tecnologias de ponta à realidade das escolas públicas. A proposta já recebeu reconhecimento internacional da UNESCO, que instituiu uma Cátedra dedicada ao tema.
Diferentemente das soluções tradicionais, a IAED-U não depende de internet contínua nem de computadores de alto desempenho. O sistema opera em dispositivos simples, o que permite levar os benefícios da inteligência artificial a regiões com conectividade escassa ou instável, ampliando o acesso e reduzindo desigualdades educacionais.
Segundo Rafael Mello, diretor de tecnologia do IA.Edu, os modelos utilizados são os mesmos empregados em soluções avançadas de IA, como modelos de linguagem de grande escala e sistemas preditivos. O diferencial está no desenho da solução e na forma como os resultados são entregues às escolas, de modo acessível e funcional.
“Tutor Desplugado”
Um dos exemplos práticos é o chamado “Tutor Desplugado”, sistema de apoio ao ensino que funciona em equipamentos de baixo custo, como o Raspberry Pi. Nele, o professor propõe atividades alinhadas ao currículo local, os estudantes resolvem os exercícios em seus cadernos e inserem as respostas no sistema. O retorno é imediato, com explicações e orientações em caso de erro. O docente recebe relatórios detalhados sobre o desempenho da turma, o que permite intervenções pedagógicas mais precisas. Quando há conexão disponível, os dados são sincronizados para análises mais amplas.
Essa abordagem foi aplicada no desenvolvimento do Escreva+, aplicativo que utiliza a IAED-U para apoiar professores do ensino médio na correção de redações. A ferramenta permite a transcrição automática de textos manuscritos e a avaliação com base nos critérios do Exame Nacional do Ensino Médio. O sistema gera notas por competência e um feedback detalhado em poucos minutos.
A tecnologia tem origem em um projeto desenvolvido em parceria com o Ministério da Educação entre 2021 e 2022, que alcançou mais de 1,5 milhão de redações produzidas por cerca de 500 mil estudantes em 7 mil escolas. O tempo de retorno aos alunos foi reduzido de dias para minutos, diminuindo custos e ampliando a eficiência do processo avaliativo. O Escreva+ consolidou o maior banco de dados de redações manuscritas em português brasileiro com transcrição feita por inteligência artificial.
Além do ganho de eficiência, a ferramenta apresenta alta aceitação entre professores, com avaliação de usabilidade considerada excelente. Um dos principais benefícios apontados é a redução do tempo dedicado à correção manual, liberando os docentes para atividades pedagógicas mais qualificadas.
Para Alessandra Debone, diretora-presidente do IA.Edu, a inteligência artificial representa uma transformação profunda nas relações de trabalho e nas competências exigidas no mundo contemporâneo, o que torna essencial garantir seu acesso a todos os estudantes. Segundo ela, a IA desplugada permite que alunos de regiões com baixa conectividade não fiquem excluídos desse processo de transformação tecnológica.
A cofundadora do instituto, Maria Alice Carraturi, reforça que, sem esse tipo de solução, muitos estudantes permaneceriam à margem das inovações. A IA desplugada, segundo ela, funciona como porta de entrada para o uso responsável e formativo da tecnologia em contextos historicamente excluídos.
O potencial da IAED-U também se estende à personalização do ensino, com adaptação das atividades ao nível e às necessidades de cada estudante, incluindo aqueles que demandam recursos de acessibilidade. Essa característica contribui para reduzir desigualdades de aprendizagem e promover experiências educacionais mais equitativas.
Dados, pesquisas e investimentos
Apesar dos avanços, desafios persistem. Dados do Censo Escolar 2023 mostram que menos da metade das escolas municipais dispõe de computadores para uso dos estudantes. A formação docente também é apontada como entrave, já que apenas 43% dos professores se sentem preparados para utilizar recursos digitais em sala de aula, e somente 8% os integram de forma efetiva à prática pedagógica.
Para os pesquisadores, a consolidação da IA desplugada depende de investimentos contínuos em pesquisa, formação de professores, produção de bases de dados abertas e políticas públicas que garantam tanto a inovação quanto a proteção de dados. Também destacam a necessidade de processos mais ágeis no setor público para que as tecnologias cheguem às escolas sem defasagem.
Embora a IA desplugada seja hoje uma solução necessária para contextos de baixa infraestrutura, os pesquisadores ressaltam que a ampliação do acesso à internet de qualidade continua sendo prioridade para garantir que todas as escolas acompanhem a evolução tecnológica.
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