Responsabilidade Social • 18:01h • 10 de outubro de 2026
Imprensa sob ataque: agressões a jornalistas disparam 74% nas eleições de 2026
Monitoramento identificou 14.182 ataques à imprensa nas redes sociais durante a campanha; mulheres foram as principais vítimas de agressões individuais, com 64,8% dos registros
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Abraji | Foto: Arquivo/Âncora1
Os ataques contra jornalistas e veículos de comunicação aumentaram aproximadamente 74% na reta final do primeiro turno das eleições de 2026 no Brasil. Segundo levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), divulgado após a votação de 4 de outubro, foram identificadas 14.182 manifestações ofensivas no X e no Instagram entre 16 de agosto e o dia da eleição. A média diária passou de 188 ataques no início da campanha para 327 nos oito dias anteriores à votação, em um cenário marcado por ofensas pessoais, acusações contra a imprensa e tentativas de desacreditar a cobertura eleitoral.
O levantamento analisou aproximadamente 3,7 milhões de publicações e comentários nas duas plataformas durante 50 dias. As manifestações identificadas incluíram ataques direcionados a profissionais específicos, mensagens contra organizações jornalísticas e conteúdos que associavam a cobertura política a supostas manipulações e interesses partidários.
A intensificação ocorreu principalmente durante a divulgação de pesquisas eleitorais, entrevistas, reportagens investigativas e controvérsias envolvendo candidatos. Entre as expressões recorrentes estavam acusações de "fake news", "jornalista militante" e "imprensa golpista", além de questionamentos sobre a credibilidade de veículos e profissionais.
A disputa presidencial concentrou quase 80% dos ataques nos quais foi possível identificar o contexto eleitoral. Conflitos relacionados às eleições estaduais também contribuíram para o aumento das manifestações ofensivas.
Mulheres jornalistas receberam quase 65% dos ataques individuais
Entre os 3.106 ataques direcionados a jornalistas individualmente identificados durante o primeiro turno, 2.013 tiveram mulheres como alvo, o equivalente a 64,8% dos registros dessa categoria.
As agressões ultrapassaram questionamentos sobre o conteúdo das reportagens e incluíram insultos sexuais, manifestações misóginas e mensagens de incentivo à violência física.
O relatório apresenta episódios envolvendo profissionais de diferentes veículos. Natalia Viana, da Agência Pública, passou a receber ataques após procurar uma fonte durante uma apuração, antes mesmo da publicação da reportagem. Juliana Dal Piva foi alvo de agressões durante a repercussão de investigações relacionadas ao caso Banco Master.
A jornalista Maria Cristina Fernandes também enfrentou uma onda de manifestações ofensivas após um comentário na GloboNews sobre Nossa Senhora Aparecida.
Embora as mulheres tenham concentrado a maior parte das agressões individuais ao longo da campanha, o comportamento mudou nos oito dias finais. Nesse período, os homens receberam 55,1% dos ataques direcionados a profissionais identificados, resultado influenciado por uma ofensiva contra o jornalista Ricardo Noblat na plataforma X.
Instagram concentrou mais ataques, mas X liderou na última semana
No acumulado do primeiro turno, o Instagram respondeu por 61,8% dos ataques identificados pelo monitoramento. A plataforma X, entretanto, passou a concentrar a maior quantidade de registros na reta final da campanha.
Entre os veículos atingidos estavam g1, GloboNews, Folha de S.Paulo e CNN Brasil, além de jornalistas que atuam individualmente na cobertura política.
Segundo a análise, parte das manifestações buscava desqualificar não apenas reportagens ou informações específicas, mas a própria legitimidade dos profissionais e organizações responsáveis pela produção jornalística.
O levantamento diferencia esse comportamento da crítica ao trabalho da imprensa, uma vez que os registros incluem intimidações, ofensas pessoais e ameaças que ultrapassam o debate sobre a qualidade ou a precisão das notícias.
Pesquisa analisou 652 termos e hashtags ofensivos
O monitoramento foi realizado pela Coalizão em Defesa do Jornalismo em colaboração com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
Durante os 50 dias de acompanhamento, os pesquisadores utilizaram 652 termos e hashtags ofensivos para identificar manifestações relacionadas à cobertura eleitoral no X e no Instagram.
A análise também contou com a participação do ITS Rio, responsável por examinar a toxicidade das mensagens com auxílio da ferramenta Perspective API, desenvolvida pelo Google.
Os resultados foram reunidos no relatório Cobrir as eleições, enfrentar a violência: uma análise dos ataques à imprensa no primeiro turno de 2026.
O documento está disponível no site da Coalizão em Defesa do Jornalismo e apresenta os registros de agressões digitais identificados durante a campanha eleitoral.
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