Mundo • 09:11h • 05 de julho de 2026
Investigação sobre CazéTV reacende debate sobre publicidade de apostas nas transmissões esportivas
Apuração da Senacon sobre divulgação de apostas durante jogos da Copa do Mundo de 2026 levanta discussões sobre os limites entre entretenimento, conteúdo editorial e propaganda em plataformas digitais
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
A investigação aberta pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para apurar possíveis irregularidades na divulgação de apostas esportivas durante as transmissões da CazéTV na Copa do Mundo de 2026 reacendeu o debate sobre os limites da publicidade em plataformas digitais. Especialistas discutem até que ponto a integração entre entretenimento, informação e promoção de apostas pode influenciar o público e ampliar riscos sociais.
A CazéTV consolidou-se como uma das principais transmissoras da Copa e é a única plataforma responsável pela exibição dos 104 jogos do torneio. O canal, que disputa audiência com emissoras tradicionais, passou a ser alvo da investigação após narradores e comentaristas apresentarem, durante transmissões e programas de pré-jogo, sugestões de apostas e probabilidades de resultados, além de orientações sobre onde apostar.
Levantamento do portal ICL Notícias identificou 74 recomendações de apostas em 48 partidas transmitidas pela plataforma. Em 61% dos casos, os resultados sugeridos não se confirmaram. As recomendações envolviam casas de apostas que patrocinam o canal, entre elas Bet365, Betnacional e KTO.
Especialistas apontam riscos da mistura entre entretenimento e publicidade
Para o professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol, Anderson Santos, o modelo da CazéTV aproxima publicidade e entretenimento de forma mais natural do que ocorre na televisão tradicional. Segundo ele, essa estratégia pode ser problemática quando envolve apostas esportivas, por se tratar de uma atividade com impactos na saúde financeira, física e mental da população.
Já a professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Janaine Aires, avalia que o ambiente digital ainda apresenta lacunas regulatórias. Enquanto a publicidade na televisão costuma ser claramente separada do conteúdo editorial, nas transmissões online as mensagens comerciais podem ser incorporadas ao próprio conteúdo, tornando mais difícil para o público identificar quando está diante de uma ação publicitária.
Segundo a pesquisadora, essa ausência de regras específicas cria um espaço favorável para estratégias mais agressivas de marketing por parte das empresas do setor.
O crescimento do mercado de apostas reforça essa preocupação. Estudo da Agência Macfor aponta que, antes da Copa do Mundo, o termo "bet" registrou mais de 18 milhões de buscas no Brasil e que seis em cada dez brasileiros pretendiam realizar apostas durante o torneio. Nos últimos cinco anos, o interesse pelo tema cresceu 496% no país.
Dados do Ministério da Fazenda mostram que o setor movimentou lucro bruto de R$ 37 bilhões em 2025. Em comparação internacional, o interesse pelas apostas diminuiu em países como Reino Unido, Portugal e Espanha, enquanto avançou significativamente na Argentina.
Criada em 2022 por meio da parceria entre a LiveMode e o streamer Casimiro Miguel, a CazéTV ganhou espaço após a aprovação da Lei do Mandante, que ampliou a liberdade dos clubes para negociar direitos de transmissão. O formato adotado pelo canal privilegia uma linguagem descontraída e interativa, aproximando a cobertura esportiva do entretenimento digital.
Para Anderson Santos, esse modelo não substitui o jornalismo esportivo tradicional, mas oferece uma experiência mais informal, semelhante a uma conversa entre amigos durante uma partida. Já Janaine Aires observa que essa opção também reduz custos de produção, uma vez que o entretenimento não está sujeito às mesmas exigências profissionais e sindicais do jornalismo.
Projetos propõem restringir publicidade de apostas
O avanço da publicidade de apostas também chegou ao Congresso Nacional. Atualmente, tramitam a proposta de lei nº 2.478/2026, na Câmara dos Deputados, e a proposta de lei nº 2.470/2026, no Senado, que pretendem proibir publicidade e patrocínio de empresas de apostas esportivas e jogos online em meios de comunicação e eventos esportivos.
Para especialistas, o debate deve se intensificar diante da crescente presença das casas de apostas no esporte, na mídia e em diferentes setores da economia, ampliando os desafios para a regulamentação da publicidade no ambiente digital.
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