Saúde • 17:26h • 02 de julho de 2026
Jogos que avaliam desempenho motor contribuem para diagnóstico do autismo
Método objetivo e quantificável - com captação de sutilezas do movimento - pode auxiliar na precisão dos diagnósticos
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: EEFE
O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é feito, atualmente, com base na observação clínica, entrevistas com familiares e testes neuropsicológicos. Como esses métodos dependem, em grande parte, da avaliação de comportamentos, podem apresentar certo grau de subjetividade. Por isso, pesquisadores têm buscado ferramentas que complementem o processo com informações mais objetivas e mensuráveis.
Nesse contexto, uma pesquisa da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP investigou o uso de um jogo interativo com captura de movimentos para identificar padrões motores característicos de pessoas com TEA. O objetivo foi verificar se a tecnologia conseguiria diferenciar indivíduos com autismo de pessoas neurotípicas por meio da análise de respostas sensório-motoras.
O estudo, conduzido pela pesquisadora Fernanda Orosco Guilherme, sob orientação do professor Jorge Alberto de Oliveira, mostrou que o tempo de resposta foi o principal indicador capaz de distinguir os participantes. Em todas as etapas da atividade, as pessoas com autismo apresentaram respostas significativamente mais lentas do que o grupo controle
Os resultados reforçam o potencial da ferramenta como complemento às avaliações tradicionais, oferecendo uma forma mais precisa, objetiva e envolvente de analisar aspectos motores que nem sempre são facilmente percebidos durante a avaliação clínica.
Os chamados serious games (jogos sérios) são desenvolvidos para fins educacionais, terapêuticos, de treinamento ou reabilitação, indo além do entretenimento. No caso do autismo, eles permitem registrar com precisão informações sobre coordenação motora, equilíbrio, padrões de movimento e estereotipias, reduzindo a subjetividade das avaliações convencionais.
Além do uso no diagnóstico, esses jogos também podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades motoras, cognitivas, sociais e emocionais em um ambiente lúdico e estimulante.
Para a pesquisa, foram recrutadas 38 pessoas com diagnóstico clínico de autismo, com idades entre 5 e 25 anos, por meio da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Tatuí (SP). O grupo controle foi formado por outros 38 participantes com desenvolvimento típico, pareados por idade e sexo.
O experimento utilizou o jogo Bubbles, no qual os participantes precisam interceptar bolhas que aparecem aleatoriamente na tela utilizando os movimentos dos braços. Durante a atividade, uma câmera registrava os movimentos em tempo real para medir indicadores como tempo de resposta, precisão dos acertos e trajetória percorrida até alcançar os alvos.
Os participantes com TEA apresentaram menor precisão, trajetórias menos eficientes e, principalmente, maior tempo de resposta em comparação com o grupo controle. Esse foi o resultado mais consistente observado durante todo o experimento.
Segundo os pesquisadores, os dados demonstram que o jogo consegue identificar e quantificar padrões sensório-motores associados ao autismo, indicando que tecnologias desse tipo podem modernizar e complementar os métodos tradicionais de diagnóstico.
Além de oferecer baixo custo e grande aceitação entre pessoas com TEA, a ferramenta também pode ser utilizada para acompanhar a evolução dos pacientes durante o tratamento. A expectativa dos pesquisadores é que, no futuro, os jogos sérios se tornem recursos cada vez mais acessíveis e presentes nos serviços públicos de saúde, auxiliando tanto no diagnóstico quanto no monitoramento terapêutico.
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