Responsabilidade Social • 15:12h • 28 de fevereiro de 2026
Juiz de Fora: desastre reflete negligência com aquecimento global
Especialistas apontam que temporais na Zona da Mata mineira evidenciam impactos das mudanças climáticas, falhas no planejamento urbano e necessidade de adaptação das cidades
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Os temporais que deixaram ao menos 47 mortos, 3 mil desabrigados e 400 desalojados na Zona da Mata mineira são apontados por especialistas como reflexo da negligência diante das mudanças climáticas e da falta de políticas públicas estruturantes. As fortes chuvas atingiram principalmente os municípios de Juiz de Fora e Ubá, provocando enxurradas, deslizamentos e cheias acima do normal.
Para o geógrafo Miguel Felippe, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), eventos extremos estão diretamente ligados às mudanças climáticas e tendem a se tornar mais frequentes. Segundo ele, houve negligência na adoção de políticas ambientais e de planejamento urbano, frequentemente tratadas como entraves ao desenvolvimento econômico.
Felippe afirma que a prevenção passa pelo ordenamento urbano. Na avaliação dele, o mercado imobiliário acaba empurrando a população de baixa renda para áreas mais vulneráveis, onde o risco de desastres é maior. Em Juiz de Fora, os bairros mais atingidos são justamente os mais pobres, onde os moradores têm menor capacidade de recuperação.
O professor também destaca que as áreas de risco são conhecidas, mas ações de mitigação esbarram na falta de recursos. Levantamento do jornal O Globo, com base no Portal da Transparência, aponta queda nos repasses para a defesa civil estadual, de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre 2023 e 2025.
Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que Juiz de Fora está entre as cidades com maior proporção de moradores em áreas de risco. Em um único dia, o município registrou quase todo o volume de chuva esperado para fevereiro, com impactos concentrados em bairros como Morro do Imperador, Paineiras e Parque Burnier.
O meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden, explica que a localização geográfica da cidade, em área montanhosa e próxima ao litoral, favorece a ocorrência de chuvas intensas. O aquecimento do Oceano Atlântico — com temperaturas até 3°C acima do normal na costa — aumenta a evaporação e a umidade disponível, intensificando os temporais. Segundo ele, o aquecimento global contribui para esse cenário.
Diante da dificuldade de conter totalmente inundações e deslizamentos, Seluchi defende medidas de adaptação, como retirada preventiva de moradores em caso de alerta e controle da expansão urbana em áreas vulneráveis. Ele cita o Japão como exemplo de país que investe em treinamento da população para evacuação rápida em situações de risco.
Especialistas também apontam soluções de engenharia. O professor Matheus Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que Juiz de Fora cresceu sobre a planície do Rio Paraibuna e em encostas, o que aumenta a suscetibilidade a enchentes e deslizamentos. Entre as alternativas estão a construção de pôlderes — estruturas que isolam áreas inundáveis com muros e bombas para escoamento gradual da água — e a ampliação de áreas verdes e superfícies permeáveis para reduzir o escoamento superficial.
Segundo ele, em áreas florestadas, cerca de 90% da água da chuva infiltra no solo. Já em regiões urbanizadas, ocorre o inverso: a maior parte da água escoa rapidamente, favorecendo alagamentos.
A prefeitura de Juiz de Fora possui estudos para intervenções em bairros como Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata, dentro do projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100. O governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas entre 2024 e 2025, além de recursos para drenagem urbana, mas parte dos valores ainda aguarda liberação.
Para os especialistas, além de obras estruturais, é fundamental investir em políticas públicas consistentes, planejamento urbano, educação da população e adaptação das cidades aos efeitos cada vez mais intensos das mudanças climáticas.
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