Responsabilidade Social • 15:21h • 29 de julho de 2026
Lei de Cotas completa 35 anos, mas inclusão no trabalho ainda enfrenta desafios
Estudo do Dieese mostra que número de trabalhadores com deficiência com carteira assinada permanece abaixo do previsto pela legislação; fiscalização e combate ao capacitismo estão entre as principais reivindicações
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações da CUT | Foto: Arquivo Âncora1
A Lei de Cotas, que completa 35 anos, ampliou o acesso de pessoas com deficiência ao mercado de trabalho, mas ainda enfrenta dificuldades para garantir sua plena efetividade. Dados apresentados durante o Seminário de Coletivos de Trabalhadores com Deficiência, promovido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), mostram que o número de contratações formais permanece muito abaixo do potencial previsto pela legislação.
O encontro reuniu representantes sindicais, especialistas e trabalhadores para discutir o cenário atual da inclusão profissional, os impactos da precarização das relações de trabalho e os desafios para assegurar acessibilidade, igualdade de oportunidades e cumprimento da Lei de Cotas.
Levantamento elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego, aponta que aproximadamente 759 mil pessoas com deficiência possuem vínculo formal de trabalho. O número é considerado reduzido diante dos cerca de 14 milhões de brasileiros com deficiência identificados pelo Censo Demográfico de 2022, o equivalente a 7,3% da população.
Segundo a diretora técnica do Dieese, Adriana Marcolino, apesar dos avanços proporcionados pela legislação, o descumprimento da Lei de Cotas ainda é significativo.
"A lei representa um avanço inegável, mas, passados 35 anos, ainda precisamos discutir como garantir seu efetivo cumprimento. O número de vagas reservadas que deixam de ser preenchidas continua muito elevado", afirmou.
Capacitismo e falta de oportunidades dificultam inclusão
Além da baixa contratação, o estudo mostra que pessoas com deficiência encontram dificuldades para crescer profissionalmente. Apenas uma em cada 29 pessoas com deficiência empregadas formalmente ocupa cargos de direção ou gerência, indicando que a exclusão também ocorre nas oportunidades de ascensão na carreira.
Durante o seminário, especialistas destacaram que o capacitismo continua sendo uma das principais barreiras para a inclusão. Segundo Adriana Marcolino, muitos empregadores ainda priorizam a deficiência em vez das competências, formação e experiência profissional dos candidatos.
Ela defendeu investimentos em acessibilidade, eliminação de barreiras físicas e de comunicação e maior atuação dos órgãos de fiscalização para assegurar o cumprimento da legislação.
O levantamento também revela diferenças regionais na inclusão de trabalhadores com deficiência. Estados como Pará, Amapá, Roraima, Acre, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Goiás apresentam percentuais de contratação abaixo da média nacional, evidenciando desigualdades que dificultam o acesso ao emprego formal.
Outro tema debatido foi o avanço da pejotização. Segundo o Dieese, a substituição de vínculos formais por contratos como pessoa jurídica reduz a base utilizada para calcular as vagas reservadas pela Lei de Cotas, limitando ainda mais a inclusão desse público e enfraquecendo direitos trabalhistas e previdenciários.
Representantes da CUT defenderam o fortalecimento da fiscalização, o combate ao capacitismo, a ampliação das políticas públicas de inclusão e a maior participação de trabalhadores com deficiência nos sindicatos e nas negociações coletivas.
Para a vice-presidenta nacional da CUT, Juvandia Moreira, a Lei de Cotas foi fundamental para ampliar a presença das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, mas sua efetivação depende da mobilização permanente da sociedade e do fortalecimento das políticas públicas.
Segundo ela, a inclusão não deve se limitar ao acesso ao emprego, mas também garantir ambientes de trabalho acessíveis, livres de discriminação e com igualdade de oportunidades para o desenvolvimento profissional.
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