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Ciência e Tecnologia • 14:28h • 02 de novembro de 2025

Linhagem do sorotipo 3 da dengue entrou no Brasil vinda do Caribe e Costa Rica

Linhagem do vírus, que causou aumento de casos do sorotipo 3 a partir de 2023, foi introduzida no país em Roraima, Pará, Minas Gerais e São Paulo

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1

Os bioinformatas James Siqueira e Alex Ranieri, do CeVIVAS, fizeram a pesquisa a partir da análise de 1.536 genomas do vírus 3 da dengue.
Os bioinformatas James Siqueira e Alex Ranieri, do CeVIVAS, fizeram a pesquisa a partir da análise de 1.536 genomas do vírus 3 da dengue.

Um estudo conduzido pelo Instituto Butantan identificou que o retorno do vírus da dengue tipo 3 (DENV-3) ao Brasil entre 2023 e 2024 ocorreu devido a múltiplas introduções internacionais, vindas de países do Caribe e da América Central, como Cuba, Porto Rico e Costa Rica. A pesquisa, realizada pelo Centro de Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVIVAS), foi publicada na revista científica Virus Evolution, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o Brasil ultrapassou a marca de 10 milhões de casos de dengue em 2024, sendo mais da metade confirmados em laboratório. O avanço da doença resultou em mais de 6 mil mortes.

Embora o tipo 3 represente uma fração menor dos registros, o crescimento foi expressivo: 1.694 casos em 2024, contra 106 no ano anterior. O aumento foi mais intenso nas regiões Norte e Sudeste.

Após a análise de 1.536 genomas do vírus, os cientistas identificaram a linhagem 3III_B.3.2, pertencente ao genótipo 3III, e mapearam pelo menos seis rotas independentes de entrada no Brasil. O primeiro registro teria ocorrido no fim de 2022, em Roraima, seguido por São Paulo, Minas Gerais e Pará.

“Queríamos entender a origem do reaparecimento do DENV-3 e conseguimos traçar suas rotas de entrada, o que é essencial para a vigilância genômica”, explicou o bioinformata Alex Ranieri, um dos principais autores do estudo.

Pesquisas anteriores já haviam identificado o vírus em Roraima, Paraná e Minas Gerais, sugerindo o risco de uma nova epidemia. A ausência prolongada do tipo 3 — que circulou de forma limitada por mais de uma década — deixou parte da população sem imunidade, o que aumentou a vulnerabilidade a surtos em larga escala, semelhantes aos registrados em 2002.

Entre 2014 e 2022, apenas 109 casos de DENV-3 haviam sido notificados no país. O salto para mais de 100 registros em 2023 sinalizou o ressurgimento do vírus, mas até então não havia sido possível determinar de onde ele veio.

O trabalho do Butantan conseguiu identificar essas origens com base em análises filogenéticas (de linhagens virais) e filogeográficas (de circulação entre países). Os resultados mostram que as linhagens encontradas no Pará, Roraima e São Paulo vieram de Cuba, enquanto as de Minas Gerais e São Paulo se originaram em Porto Rico e Costa Rica.

“O estudo reforça a importância da vigilância em aeroportos e fronteiras, já que todas as rotas de introdução foram independentes”, destacou James Siqueira Pereira, pesquisador do Instituto Butantan e aluno da USP.

A equipe do CeVIVAS contou com a colaboração da pesquisadora Marta Giovanetti, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e do pesquisador Nathan D. Grubaugh, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, que analisou dados de pacientes que haviam viajado para o Caribe.

O vírus da dengue tem quatro sorotipos (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4), e cada um possui variações genéticas chamadas genótipos. Ao longo do tempo, essas variantes sofrem mutações e dão origem a novas linhagens, o que ajuda a explicar a complexidade dos surtos e a importância da vigilância contínua.

A epidemia de 2023 e 2024 foi uma das mais severas das últimas décadas, impulsionada principalmente pelos tipos 1 e 2. O retorno do tipo 3 trouxe uma nova dinâmica à crise sanitária.

“As rotas aéreas entre o Brasil e o Caribe contribuíram para a reintrodução do vírus. Isso mostra que a vigilância genômica e a cooperação internacional são fundamentais para prevenir novas epidemias”, concluiu Alex Ranieri.


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