Saúde • 16:03h • 17 de julho de 2026
Maioria das gestantes deseja parto normal, mas acaba passando por cesariana, aponta estudo
Pesquisa do Unicef mostra que medo da dor, falta de informação, desigualdades no atendimento e fatores estruturais influenciam a alta taxa de cesarianas no Brasil, que supera 60% dos nascimentos
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
Embora a maioria das brasileiras manifeste o desejo de ter um parto normal no início da gravidez, grande parte acaba dando à luz por cesariana. É o que mostra uma pesquisa divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que aponta que essa decisão vai além da escolha individual e é influenciada por fatores psicológicos, sociais e estruturais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as cesarianas representem até 15% dos partos, percentual considerado adequado para atender situações em que a cirurgia é realmente necessária. No Brasil, porém, mais de 60% dos nascimentos ocorrem por cesariana, índice que se aproxima de 90% na rede privada de saúde, colocando o país entre os que apresentam as maiores taxas do mundo.
O estudo foi desenvolvido para entender por que tantas mulheres mudam de opinião ao longo da gestação. A pesquisa ouviu 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde, em hospitais públicos e privados das cidades de São Paulo e Belém.
Entre os fatores que favorecem a escolha pelo parto normal está a recuperação mais rápida após o nascimento. Em contrapartida, o medo da dor aparece como um dos principais motivos que levam muitas mulheres a optar pela cesariana.
Os pesquisadores destacam que esse receio é alimentado por relatos de experiências traumáticas vividas por familiares e conhecidas. Muitas dessas histórias envolvem procedimentos desnecessários ou situações caracterizadas como violência obstétrica, o que contribui para associar o parto normal ao sofrimento.
Diferenças entre SUS e rede privada
O levantamento também identificou diferenças entre usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede privada. No SUS, muitas mulheres relatam a necessidade de uma recuperação rápida para voltar aos cuidados da casa, dos filhos e do trabalho, especialmente quando não contam com rede de apoio. Já entre as pacientes da rede particular, a escolha pelo parto normal costuma estar relacionada ao conhecimento dos benefícios para a mãe e o bebê e à possibilidade de contratar equipes especializadas para acompanhar o nascimento.
Outro aspecto observado foi que algumas gestantes atendidas pelo SUS optam pela cesariana para realizar a laqueadura durante o procedimento, muitas vezes por desconhecerem outras opções de contracepção disponíveis ou a possibilidade de fazer a cirurgia após um parto normal.
A pesquisa também aponta que a qualidade das informações recebidas durante o pré-natal influencia diretamente a decisão. Muitas mulheres afirmaram receber poucas orientações sobre o trabalho de parto e desconhecer a possibilidade de elaborar um plano de parto com suas preferências. No SUS, algumas relataram sentir que a decisão final ficará nas mãos da equipe médica, independentemente de sua vontade.
Na rede privada, por outro lado, as gestantes demonstraram maior preparo, muitas vezes por iniciativa própria. Algumas relataram, inclusive, trocar de obstetra quando percebiam resistência à realização do parto vaginal.
Outro desafio identificado é o acesso limitado à analgesia durante o trabalho de parto na rede pública. Enquanto esse recurso está amplamente disponível na maioria dos hospitais privados, no SUS ele ainda se concentra em poucas unidades de referência.
Diante desse cenário, o Unicef recomenda ampliar a oferta de métodos para alívio da dor, qualificar o pré-natal com informações mais completas sobre o parto, fortalecer o papel dos acompanhantes e doulas, ampliar os Centros de Parto Normal, garantir maior acesso à analgesia e revisar modelos de atendimento que favoreçam cesarianas sem indicação clínica.
Como parte da iniciativa, o Unicef lançou a campanha "Parto normal. Uma escolha que merece respeito", com o objetivo de estimular o debate sobre o direito das mulheres de receber informações de qualidade, participar das decisões sobre o nascimento e viver uma experiência de parto segura, respeitosa e humanizada.
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