Mundo • 16:13h • 19 de junho de 2026
Mais da metade das ações judiciais por medicamentos envolve tratamentos já aprovados pelo SUS
Pesquisa premiada em congresso internacional indica que demora para disponibilizar medicamentos pode estar por trás da judicialização da saúde no Brasil
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Edelman | Foto: Arquivo/Âncora1
Um estudo apresentado pela Interfarma durante o congresso da Health Technology Assessment International (HTAi), realizado em Istambul, na Turquia, revelou que 57,5% dos medicamentos solicitados judicialmente no Brasil já haviam sido incorporados ou recebido recomendação favorável para incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). O trabalho recebeu o prêmio de melhor pôster do evento, considerado o principal encontro mundial sobre avaliação de tecnologias em saúde.
A pesquisa analisou decisões judiciais registradas entre janeiro de 2022 e abril de 2025 e identificou 3.049 ações relacionadas ao fornecimento de medicamentos. Ao todo, foram avaliadas 4.637 solicitações envolvendo 1.402 moléculas diferentes.
Judicialização nem sempre está ligada a medicamentos não aprovados
O levantamento chama atenção para um aspecto que costuma passar despercebido no debate sobre judicialização da saúde. Em muitos casos, os medicamentos já passaram pelo processo de avaliação técnica e receberam parecer favorável para uso na rede pública.
Segundo o estudo, o principal obstáculo estaria na demora entre a aprovação e a efetiva disponibilização dos tratamentos aos pacientes.
Isso significa que parte das ações judiciais pode estar relacionada não à ausência de avaliação científica, mas à dificuldade de acesso a medicamentos que já deveriam estar disponíveis dentro do sistema público.
Tempo de espera pode chegar a mais de três anos
A pesquisa identificou que o intervalo médio entre a recomendação de incorporação de um medicamento e sua chegada efetiva aos pacientes é de aproximadamente 37 meses.
Desse período:
- Cerca de 22 meses são destinados à elaboração e publicação dos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDTs);
- Outros 15 meses estão relacionados aos processos de compra e distribuição dos medicamentos pelo poder público.
Na prática, o resultado é uma espera superior a três anos entre a aprovação e o acesso regular ao tratamento.
Debate ganha repercussão internacional
O estudo foi apresentado durante o encontro anual da HTAi, organização internacional voltada à avaliação de tecnologias em saúde. O reconhecimento obtido no evento reforça a relevância do tema para sistemas de saúde de diferentes países.
A pesquisa destaca que a avaliação científica e a incorporação de medicamentos representam apenas uma etapa do processo. Para que os benefícios sejam efetivamente percebidos pelos pacientes, é necessário que os tratamentos cheguem à rede de atendimento em prazo adequado.
A judicialização da saúde tem sido um dos principais desafios enfrentados pelos gestores públicos nos últimos anos. Além dos custos associados aos processos judiciais, especialistas apontam que atrasos no acesso aos tratamentos podem gerar impactos tanto para os pacientes quanto para a organização da assistência pública.
Os resultados do estudo reforçam a discussão sobre a necessidade de reduzir o tempo entre a aprovação de novas tecnologias e sua efetiva oferta à população, buscando garantir que os tratamentos recomendados estejam disponíveis quando os pacientes precisarem deles.
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