Economia • 13:29h • 04 de fevereiro de 2026
Mais de R$ 10 bilhões seguem parados e o problema não é esquecimento, diz advogado
Medo de golpes, desinformação e falhas na comunicação explicam por que milhões não acessam o dinheiro esquecido
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da MakeBuzz Assessoria | Foto: Divulgação
Mesmo com mais de R$ 10 bilhões disponíveis para resgate no sistema financeiro brasileiro, milhões de pessoas físicas e empresas seguem sem solicitar valores a que têm direito. Segundo especialistas, o fenômeno já não pode ser explicado apenas por esquecimento, mas por um conjunto de fatores que envolve medo de golpes, informações fragmentadas e falhas na comunicação entre o Estado e o cidadão.
Dados do Banco Central do Brasil indicam que dezenas de milhões de brasileiros ainda não acessaram o Sistema de Valores a Receber, que reúne recursos provenientes de contas encerradas, tarifas cobradas indevidamente, saldos residuais de consórcios, cooperativas de crédito e instituições financeiras já liquidadas. Apesar da ampla divulgação inicial, a adesão estagnou.
Para o advogado Fábio Scolari, que acompanha o tema e orienta cidadãos por meio de seus canais de comunicação, o problema central deixou de ser o montante acumulado e passou a ser o afastamento das pessoas do próprio direito. “O dinheiro existe e o sistema também, mas o cidadão não chega até ele. Não por falta de direito, e sim por falta de clareza. Isso gera uma perda patrimonial silenciosa, sem protesto e sem contestação”, afirma.
Medo de golpe virou barreira real
Segundo Scolari, o principal fator que hoje impede o resgate é o receio de fraude. A exploração indevida do tema por golpistas criou um ambiente de desconfiança generalizada. “Muita gente associa qualquer menção a ‘dinheiro esquecido’ a golpe. Como o Banco Central não entra em contato direto com o cidadão, esse vazio de comunicação acaba afastando até quem tem valores legítimos a receber”, explica.
Sensação de prazo perdido afasta cidadãos
Outro ponto recorrente é a crença equivocada de que o prazo para resgate já terminou ou de que o dinheiro foi automaticamente incorporado pelo governo. “Essa ideia se espalhou porque a comunicação não é contínua. Quando o assunto some do noticiário, muita gente entende que perdeu o direito, mesmo quando isso não é verdade”, diz o advogado.
Complexidade pesa mais para idosos e herdeiros
A burocracia e a dificuldade de compreensão do sistema financeiro também afastam grupos específicos, como idosos, herdeiros e pequenos empresários. “Quando o processo parece complicado ou técnico demais, a tendência é desistir. Direito só existe de fato quando pode ser exercido com simplicidade”, afirma Scolari.
Alerta feito em 2024 começa a se confirmar
O advogado lembra que esse cenário já havia sido previsto. Em 2024, ao comentar publicamente o tema, ele alertou que a ausência de comunicação clara e permanente poderia levar o cidadão a se desconectar do assunto. “O tema aparece, some e depois reaparece meses depois. A mensagem implícita é que o prazo acabou ou que não vale mais a pena procurar. O efeito agora é claro: as pessoas não esqueceram o dinheiro, elas desistiram de buscar”, avalia.
Para Scolari, o debate precisa avançar além dos números divulgados. “O ponto central não é mais quanto dinheiro existe parado, mas por que ele continua parado. Isso revela falhas graves de comunicação institucional, baixa educação financeira e risco concreto de perda de direitos por omissão informacional”, conclui.
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