Saúde • 15:03h • 23 de março de 2026
Medicamentos em supermercados: avanço ou risco à saúde pública
Projeto aprovado na Câmara amplia acesso, mas especialistas alertam para riscos da automedicação e reforçam papel do farmacêutico
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Baronesa | Foto: Divulgação
A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que autoriza a instalação de farmácias em supermercados recoloca o setor farmacêutico no centro do debate no Brasil. O texto permite a comercialização de medicamentos nesses estabelecimentos, desde que haja espaço físico independente e presença obrigatória de farmacêutico responsável durante todo o funcionamento.
A proposta segue para sanção presidencial e impacta diretamente um dos maiores mercados farmacêuticos do mundo, que movimenta mais de R$ 150 bilhões por ano, segundo dados da IQVIA. Atualmente, o país conta com mais de 90 mil farmácias ativas, conforme o Conselho Federal de Farmácia.
Acesso ampliado e preocupação com segurança
A possibilidade de novos pontos de venda amplia o acesso da população a medicamentos, mas também levanta preocupações sobre segurança sanitária e uso correto.
Para a farmacêutica Fabiola Faleiros, o debate não deve se limitar à concorrência comercial. Segundo ela, a exigência da presença do farmacêutico é um ponto central da proposta. Medicamentos exigem orientação técnica, avaliação de risco e responsabilidade. A ampliação do acesso precisa vir acompanhada de segurança.
Automedicação já é realidade no país
O cenário brasileiro já apresenta alto índice de automedicação. Pesquisa do ICTQ aponta que cerca de 77% dos brasileiros admitem consumir medicamentos por conta própria. Além disso, dados do Sinitox mostram que medicamentos estão entre as principais causas de intoxicação no país.
Nesse contexto, especialistas alertam que a proximidade dos medicamentos com ambientes de consumo cotidiano pode reforçar a percepção equivocada de que seu uso é simples e sem riscos. A atuação do farmacêutico é considerada a última etapa de segurança antes do início de um tratamento, com análise de interações, contraindicações e adequação das doses.
Mudanças no varejo e valorização da especialização
A entrada de supermercados no setor pode intensificar a competitividade no varejo farmacêutico, que já passou por forte consolidação nos últimos anos. A tendência, segundo análise do setor, é de valorização de modelos mais especializados, como as farmácias de manipulação, que trabalham com personalização de tratamentos.
Esse tipo de serviço se diferencia pela adaptação de doses, formulações e necessidades específicas de cada paciente, o que não é replicado em larga escala no varejo tradicional.
Mercado pet também cresce
Outro segmento em expansão é o mercado veterinário. O Brasil ocupa a terceira posição global, movimentando mais de R$ 60 bilhões por ano.
Dentro desse cenário, a manipulação veterinária tem ganhado espaço pela possibilidade de personalização de medicamentos para diferentes espécies e portes de animais, aumentando a adesão e a segurança dos tratamentos.
Transformação em curso
A mudança regulatória sinaliza uma reconfiguração do setor farmacêutico no país, com ampliação de acesso e novos modelos de negócio. Especialistas destacam que o principal desafio será equilibrar conveniência e responsabilidade, garantindo que o medicamento não seja tratado como um produto comum de consumo.
A segurança do paciente e a atuação técnica do farmacêutico permanecem como elementos centrais nesse processo de transformação.
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