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Mundo • 14:42h • 14 de julho de 2026

Misoginia pode virar crime equiparado ao racismo e ter pena de até cinco anos; entenda o projeto

Proposta já aprovada pelo Senado aguarda votação na Câmara e reacende debate sobre ataques contra mulheres, liberdade de expressão e os limites da nova regra

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Nova Ideia | Foto: Divulgação

Crítica ou misoginia? Projeto que prevê até cinco anos de prisão avança no Congresso
Crítica ou misoginia? Projeto que prevê até cinco anos de prisão avança no Congresso

Ataques, humilhações e manifestações de ódio dirigidas a alguém pelo fato de ser mulher podem ganhar um enquadramento penal específico no Brasil. O Projeto de Lei 896/2023 pretende incluir a misoginia entre os crimes previstos na Lei do Racismo, com pena de dois a cinco anos de reclusão e multa.

A proposta já foi aprovada pelo Senado e recebeu regime de urgência na Câmara dos Deputados, mas ainda não se tornou lei. A votação do mérito, prevista para julho, foi adiada diante da falta de consenso entre lideranças partidárias.

O avanço do projeto ocorre em meio ao crescimento das denúncias de misoginia na internet. A SaferNet Brasil recebeu 8.728 denúncias únicas relacionadas ao tema em 2025. Em 2024, haviam sido 2.686 registros, uma alta de 224,9% em apenas um ano.

O que o projeto considera misoginia?

A versão aprovada pelo Senado define misoginia como a conduta que exterioriza ódio ou aversão às mulheres. O texto acrescenta a “condição de mulher” aos critérios protegidos pela Lei 7.716/1989.

Se a proposta for aprovada com essa configuração, a prática passará a integrar a Lei do Racismo e será considerada inafiançável e imprescritível.

Para Graziela Jurça Fanti, advogada especialista em mulheres e pessoas LGBTQIA+, é necessário diferenciar conflitos cotidianos de manifestações efetivamente motivadas por ódio contra mulheres. “A criminalização não deve transformar qualquer discordância em misoginia. O ponto central está na motivação da conduta, no contexto em que ela ocorre e na tentativa de atingir a dignidade, restringir direitos ou estimular violência contra mulheres enquanto grupo”, explica.

Crítica a uma mulher será considerada misoginia?

A proposta não prevê punição automática para toda crítica, comentário ofensivo, fala machista ou conflito envolvendo homens e mulheres. A análise deverá considerar o contexto, as provas e a motivação da conduta.

“Uma crítica dirigida a uma mulher não se torna misógina apenas porque é dura ou ofensiva. É preciso verificar se existe uma desqualificação fundada na condição feminina, uma tentativa de restringir direitos ou a propagação de uma ideia de inferioridade”, afirma Graziela.

Na Câmara, o debate também envolve manifestações que incentivem violência, limitem o exercício de direitos ou ofendam a dignidade da mulher em razão de sua condição. O alcance definitivo da norma, porém, ainda pode mudar durante a votação.

Internet pode reunir provas de ataques

Publicações, vídeos, mensagens, imagens manipuladas, grupos organizados e campanhas de assédio poderão integrar o conjunto de provas em uma investigação. A repetição dos ataques, a linguagem utilizada, o alcance das publicações e o histórico do conteúdo também podem ajudar na análise do caso.

A proposta ganhou força diante da atuação de comunidades digitais que difundem discursos de supremacia masculina, hostilidade contra mulheres e ideias que naturalizam o controle ou a inferiorização feminina.

Atualmente, ameaças, perseguições, injúrias e agressões contra mulheres já podem ser enquadradas no Código Penal ou em legislações específicas, como a Lei Maria da Penha. O projeto busca criar um enquadramento mais direto para situações em que o ódio às mulheres seja o elemento central da violência ou da discriminação.

Projeto ainda não virou lei

Um dos principais pontos de divergência envolve os limites da liberdade de expressão e a definição jurídica da misoginia. Defensores do projeto sustentam que discursos de ódio e incentivo à violência não devem ser tratados apenas como opinião. Críticos apontam risco de interpretações subjetivas e defendem maior precisão na redação.

O PL 896/2023 está pronto para entrar na pauta do Plenário da Câmara. Caso os deputados alterem o texto aprovado pelo Senado, a proposta deverá retornar para nova análise dos senadores antes de seguir para sanção presidencial.

Até a conclusão da tramitação, a misoginia ainda não é um crime autônomo equiparado ao racismo no Brasil.

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