Saúde • 08:08h • 07 de junho de 2026
Mortalidade materna: Brasil ainda perde centenas de mulheres por ano
Índice é de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
A cada ano, centenas de mulheres ainda morrem no Brasil durante a gestação ou até 42 dias após o parto. Em 2024, o país registrou 1.347 mortes maternas, o equivalente a uma taxa de 56,4 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus), reunidos pelo Observatório da Saúde Pública da Umane. A meta nacional é reduzir esse índice para 30 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030.
De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), cerca de 90% dessas mortes poderiam ser evitadas com acompanhamento adequado durante a gravidez, parto e pós-parto. A data de 28 de maio, marcada como Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, reforça a importância do acesso à assistência de qualidade e da garantia dos direitos das gestantes e puérperas.
A chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade-Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Isabel Peixoto, destaca que o pré-natal realizado de forma precoce e contínua é um dos principais fatores para reduzir riscos.
Segundo ela, identificar rapidamente problemas de saúde e garantir acompanhamento adequado permite que a gestante chegue ao parto em melhores condições, aumentando as chances de um desfecho positivo tanto para a mãe quanto para o bebê.
Principais causas e importância do atendimento multidisciplinar
As principais causas de morte materna no Brasil são síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações relacionadas ao aborto. Essas causas obstétricas diretas representam cerca de 66% das mortes registradas no país.
A técnica de enfermagem Fernanda Lopes de Almeida, de 41 anos, é acompanhada na Maternidade-Escola da UFRJ devido à hipertensão e ao histórico de diabetes gestacional em uma gravidez anterior. Ela relata que recebeu orientação para mudar hábitos alimentares, realizar exames frequentes e manter acompanhamento constante durante a gestação.
Para o enfermeiro obstétrico Renné Costa, membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), o trabalho conjunto entre médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde é fundamental para garantir atendimento adequado às mulheres.
Ele defende a ampliação da atuação de enfermeiros obstétricos, especialmente em municípios menores, como forma de ampliar o acesso ao parto seguro e humanizado. Renné afirma que, desde 2009, já participou de mais de 5 mil partos, a maioria no Hospital Municipal de Viçosa, em Alagoas, sem registrar mortes maternas ou de recém-nascidos.
Cuidados no pós-parto e saúde mental
Especialistas alertam que o acompanhamento da mulher após o parto também é decisivo para reduzir a mortalidade materna. A ginecologista e obstetra Inessa Beraldo de Andrade Bonomi, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), afirma que muitas mulheres deixam de receber atenção adequada após a alta hospitalar.
Segundo ela, sinais como sangramento excessivo, febre, falta de ar, dor no peito, dores de cabeça persistentes, alterações na visão e pressão alta não devem ser ignorados. A recomendação é que a mulher retorne para avaliação médica nos primeiros sete a dez dias após o parto.
A especialista também destaca a importância da saúde mental no puerpério. Tristeza intensa, ansiedade, insônia, sensação de incapacidade, dificuldade de vínculo com o bebê e exaustão extrema podem indicar sofrimento psíquico e exigem acompanhamento profissional. Em situações mais graves, podem surgir sintomas psicóticos e risco de autoagressão.
No âmbito federal, o governo lançou em 2024 a Rede Alyne, programa que busca reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027 e diminuir em 50% os óbitos entre mulheres negras. A iniciativa substitui a antiga Rede Cegonha e homenageia Alyne Pimentel, que morreu aos 28 anos, grávida de seis meses, após falhas no atendimento público de saúde em Belford Roxo, no Rio de Janeiro.
A proposta da Rede Alyne é ampliar o acesso ao cuidado humanizado e integral, levando em consideração as desigualdades raciais e regionais no atendimento à saúde materna no Brasil.
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