Ciência e Tecnologia • 20:29h • 14 de julho de 2026
“Mostre como você usa IA”: nova exigência começa a pesar nas contratações em tecnologia
Empresas começam a permitir inteligência artificial em processos seletivos e passam a avaliar se o candidato sabe questionar, validar e defender o que a ferramenta produziu
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Engenharia de Comunicação | Foto: Arquivo/Âncora1
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade e começa a se tornar um critério nas contratações em tecnologia. Empresas já redesenham testes técnicos para permitir o uso de ChatGPT, GitHub Copilot, Claude e Cursor e avaliar menos quem escreve tudo sozinho e mais quem consegue orientar, revisar e explicar o resultado produzido com apoio da IA.
Os números mostram a velocidade dessa mudança. Pesquisa do Stack Overflow aponta que 84% dos desenvolvedores usam ou planejam utilizar ferramentas de inteligência artificial no desenvolvimento, enquanto 51% já recorrem a elas diariamente.
Outro estudo, realizado com 1.725 recrutadores dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, identificou que candidatos que destacam habilidades em IA têm entre 8 e 15 pontos percentuais mais chances de serem chamados para entrevistas, especialmente em áreas como engenharia de software, design gráfico e assistência administrativa.
O teste mudou: agora o candidato pode usar IA
Durante anos, processos seletivos tentaram identificar e impedir o uso de inteligência artificial. A Codeminer42, boutique brasileira de software, decidiu inverter esse modelo e passou a criar avaliações técnicas que já pressupõem o uso das ferramentas.
“O teste técnico foi redesenhado: o formato passou a pressupor o uso de inteligência artificial, com problemas pensados para serem resolvidos com a ajuda dessas ferramentas”, explica Romulo Storel, sócio e diretor de Recursos Humanos da empresa.
O candidato recebe um problema e pode escolher livremente qual IA utilizar. O principal filtro acontece depois, durante a entrevista, quando precisa explicar as decisões tomadas, justificar a solução e responder sobre falhas ou mudanças de cenário.
Copiar da IA não basta
A nova lógica tenta separar quem utiliza inteligência artificial como apoio de quem apenas aceita a primeira resposta apresentada pela ferramenta. Entre os erros identificados estão códigos que parecem corretos, mas falham em situações específicas, excesso de complexidade e confiança sem validação.
“É na conversa que fica evidente quem só copiou e quem realmente entendeu”, afirma Storel.
Para as empresas, saber formular boas perguntas também não encerra a avaliação. O profissional precisa interpretar o resultado, identificar inconsistências e decidir quando a resposta da IA não deve ser utilizada.
Currículo começa a mostrar como o profissional usa IA
A mudança também chega ao currículo. Em vez de apenas listar ChatGPT, Claude ou outras ferramentas entre as habilidades, ganha espaço a capacidade de demonstrar onde a inteligência artificial foi utilizada e quais decisões o profissional tomou a partir dela.
Fundamentos técnicos, experiência e projetos continuam relevantes. O que muda é a expectativa de que o desenvolvedor consiga integrar a IA ao próprio processo de trabalho sem perder autonomia.
“Sem base, o profissional vira refém da ferramenta. É o fundamento que permite avaliar se o que a IA produziu está correto”, destaca Storel.
Juniores e seniores enfrentam novos desafios
Segundo a experiência relatada pela empresa, idade, formação e senioridade não determinam sozinhas quem apresenta melhor desempenho nesse novo cenário.
Profissionais iniciantes podem se destacar quando utilizam a IA com leitura crítica, mas correm o risco de depender da ferramenta sem construir conhecimento próprio. Entre os mais experientes, a resistência à tecnologia também pode reduzir eficiência.
O mercado começa, assim, a valorizar uma combinação de maturidade técnica, capacidade investigativa e adaptação. Com a IA escrevendo partes do código, o raciocínio usado para estruturar o problema e validar a solução ganha mais peso.
A tendência é que processos seletivos em tecnologia se aproximem cada vez mais do ambiente real de trabalho. Para o currículo, a mudança já começa a aparecer: dizer que conhece inteligência artificial pode ser pouco. O novo diferencial está em conseguir mostrar o que fez com ela e, principalmente, explicar por que tomou cada decisão.
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