Responsabilidade Social • 15:49h • 11 de janeiro de 2026
Nem a floresta intocada está a salvo: calor já muda o destino das aves no Brasil
Mesmo em áreas protegidas, aquecimento global reduz alimento, reprodução e ameaça espécies icônicas antes do fim do século
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Mention | Foto: Arquivo/Âncora1
O avanço do aquecimento global já provoca impactos diretos sobre as aves brasileiras, inclusive dentro de florestas preservadas e unidades de conservação. A avaliação é de Pedro Develey, diretor da SAVE Brasil, que alerta que a crise climática deixou de ser uma projeção futura e passou a interferir, agora, na sobrevivência das espécies.
Dados internacionais reforçam o alerta
A atualização mais recente da Lista Vermelha da IUCN aponta que 61% das espécies de aves do planeta apresentam populações em declínio. No Brasil, 138 espécies já são consideradas ameaçadas, segundo a BirdLife International, mesmo com parte delas vivendo em áreas oficialmente protegidas.
Segundo Develey, a elevação das temperaturas afeta diretamente a base alimentar das aves, principalmente os insetos, essenciais para muitas espécies. Com menos alimento disponível, a reprodução cai, a população não se renova e o risco de colapso aumenta. Para ele, a proteção da mata, isoladamente, já não é suficiente para garantir a sobrevivência da fauna. É necessário adotar estratégias adicionais de manejo e adaptação climática.
Na Amazônia, o papa-formiga-de-topete ilustra esse desequilíbrio
A espécie depende do deslocamento de formigas de correição para capturar insetos espantados durante o percurso. O calor excessivo altera a dinâmica desses insetos, reduzindo a oferta de alimento e comprometendo todo o comportamento da ave, mesmo em áreas onde a floresta permanece em pé.
Na Mata Atlântica, o cenário é ainda mais delicado
O crejoá, uma das aves mais emblemáticas do bioma, pode perder completamente sua área de ocorrência caso a temperatura média suba cerca de 5ºC. A espécie depende de frutos específicos, é altamente exigente quanto ao habitat e não consegue se adaptar rapidamente a mudanças na estrutura da vegetação provocadas pelo calor.
Ambientes fragmentados ampliam os riscos
Espécies com distribuição extremamente restrita, como o bicudinho-do-brejo-paulista, presente hoje em apenas seis municípios de São Paulo, enfrentam uma combinação crítica de perda de habitat e estresse térmico. Pequenas alterações ambientais já são suficientes para comprometer populações inteiras.
As projeções científicas reforçam a gravidade do quadro
Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro analisou mais de 20 mil modelagens de distribuição de espécies e concluiu que, mantido o ritmo atual de aquecimento, mais de 90% das espécies brasileiras sofrerão impactos negativos. Cerca de 25% correm risco de extinção por perda de habitat climático, quando o ambiente deixa de oferecer condições mínimas de sobrevivência.
Ainda assim, os pesquisadores apontam caminhos possíveis
Limitar o aquecimento global a até 2ºC, conforme previsto no Acordo de Paris, pode reduzir pela metade o número de espécies ameaçadas. Ações como conexão entre áreas protegidas, restauração florestal, manejo ativo e envolvimento de comunidades locais são apontadas como essenciais para aumentar a resiliência dos ecossistemas.
Para os especialistas, as aves funcionam como indicadores precoces das mudanças climáticas. O fato de espécies já estarem em declínio dentro de áreas preservadas evidencia que a crise climática ultrapassou a fronteira do desmatamento e exige uma nova abordagem de conservação. Proteger a floresta continua sendo fundamental, mas não basta mais.
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