Cidades • 17:00h • 24 de julho de 2026
Nem tudo floresce na mesma estação: o que a maternidade me ensinou sobre tempo e sucesso
Alessandra Lucco reflete sobre como a maternidade transforma a identidade feminina, desafia a ideia da supermulher e convida a uma nova relação com o tempo, a carreira e a realização pessoal
Coluna | Alessandra Lucco | Foto: Arquivo/Âncora1
Esse mês de julho produziu um efeito curioso em mim. As férias escolares interromperam a cadência habitual do escritório, os dias deixam de ser medidos apenas por prazos e reuniões, e, de repente, percebi que a organização da minha vida já não respondia à lógica do resto do ano.
Com um filho pequeno, já não na fase de bebê, mas com uma demanda muito maior por gastar energia, se entreter e precisar de um olhar mais atento e brincadeiras mais lúdicas - tudo isso fora do espaço da escola, ou seja, os pais tendo que se virar para encontrar todas essas atividades - me peguei ainda sem saber como nomear essa transformação. Na verdade, acho que ainda estou aprendendo a habitá-la.
Quando meu filho nasceu, imaginei que a grande mudança aconteceria do lado de fora. Pensei nos novos horários, nas noites mal dormidas, na logística, na rotina da casa, na agenda. Eu estava preparada para administrar uma nova dinâmica. O que eu não imaginava era que a maior revolução aconteceria internamente.
Ela não pediu licença, não veio acompanhada de um manual e, definitivamente, não terminou quando acabou a licença-maternidade. Ela continua acontecendo, silenciosamente, enquanto tento descobrir como conciliar todas as versões de mim que existem ao mesmo tempo.
Durante muito tempo, achei que essa conciliação dependesse apenas de organização. Bastaria administrar melhor a agenda, contratar ajuda, delegar mais, aprender a priorizar. Hoje percebo que essa era uma visão otimista, quase ingênua. O verdadeiro desafio nunca foi administrar o tempo. Foi compreender que eu já não era exatamente a mesma pessoa. E talvez ainda não saiba quem estou me tornando.
Tenho a impressão de que existe uma diferença importante entre a maternidade da geração das nossas mães e a maternidade vivida por muitas mulheres hoje. Não porque uma tenha sido mais difícil do que a outra. Comparações entre gerações costumam ser injustas, porque cada uma enfrentou desafios muito próprios. Mas elas partiram de lugares diferentes, e esse ponto muda quase tudo.
Muitas mulheres da geração anterior tiveram filhos muito cedo. Algumas ainda estavam descobrindo quem eram. Outras sequer haviam ingressado no mercado de trabalho. A maternidade, para elas, não interrompia uma identidade profissional consolidada porque, em muitos casos, essa identidade ainda estava sendo construída. Isso não tornava a experiência mais simples. Apenas fazia com que as renúncias tivessem outro contorno.
Nós chegamos à maternidade depois de décadas investindo na construção de quem somos. Estudamos por anos, consolidamos carreiras, abrimos empresas, conquistamos autonomia financeira, aprendemos a liderar pessoas, experimentamos o prazer de realizar projetos que nasceram das nossas próprias ideias.
Aos 35 anos, já sabemos exatamente quais partes da nossa identidade foram moldadas pelo trabalho. E é justamente por isso que também sabemos, com uma clareza quase dolorosa, o quanto de nós precisará ser doado quando um filho nasce.
Existe uma consciência que as gerações anteriores talvez não tivessem, e não porque lhes faltasse sensibilidade, mas porque lhes faltava referência. Nós sabemos o que estamos deixando para trás.
Sabemos como é passar um dia inteiro concentradas em um problema complexo, fechar um contrato importante, terminar um projeto, estudar por horas um tema que nos desperta curiosidade, viajar sem precisar organizar uma logística familiar, decidir o destino de um fim de semana na sexta-feira à noite. Sabemos exatamente o valor dessas pequenas liberdades porque vivemos todas elas durante muitos anos.
Possivelmente, seja por isso que tantas mulheres da nossa geração iniciem a maternidade acreditando que conseguirão preservar integralmente essas duas vidas. Não porque sejam ingênuas, mas porque passaram décadas ouvindo que poderiam ser tudo o que quisessem. A mensagem era bonita, necessária até. O problema é que, em algum momento, ela passou a significar que também deveríamos conseguir fazer tudo ao mesmo tempo.
Eu também acreditei nessa promessa. Achei que bastaria reorganizar a agenda. Que a maternidade seria uma variável importante, mas administrável. Como se fosse possível acrescentar uma criança à rotina sem que todo o restante precisasse ser revisto. Hoje percebo que essa expectativa escondia uma recusa silenciosa em aceitar que algumas versões de mim inevitavelmente precisariam mudar.
A maternidade talvez seja, antes de tudo, um exercício de luto. E essa palavra costuma causar desconforto porque parece incompatível com a felicidade de ter um filho. Mas uma coisa não exclui a outra. Toda grande transformação produz perdas.
Há um luto pela mulher que decidia tudo de última hora, pela disponibilidade absoluta para o trabalho, pela velocidade com que os projetos avançavam, pela sensação de que bastava esforço para que tudo acontecesse. Nenhuma dessas perdas diminui a alegria da maternidade. Elas apenas lembram que quando a versão mãe aparece, isso significa deixar outras versões de si para trás.
É justamente nesse ponto que mora, na minha opinião, o maior risco da nossa geração. Não é o excesso de trabalho. É a dificuldade de aceitar que nem tudo caberá na mesma vida, pelo menos não ao mesmo tempo.
Continuamos estabelecendo metas como se os dias ainda tivessem a mesma elasticidade de antes. Queremos que a empresa cresça no mesmo ritmo, que a carreira continue acelerando, que a casa funcione perfeitamente, que a maternidade seja vivida com presença absoluta e que, de preferência, ainda sobrem algumas horas para cuidar da saúde, estudar, encontrar amigos e descansar. Chamamos isso de equilíbrio. Mas talvez seja apenas uma expectativa impossível.
Tenho convicção de que essa é a razão de a ideia da supermulher ter encontrado tanto espaço na nossa geração. Ela parecia oferecer uma solução elegante para um problema que ninguém sabia como resolver. Não precisaríamos escolher. Bastaria administrar melhor o tempo. Trabalharíamos como se não tivéssemos filhos e criaríamos nossos filhos como se não trabalhássemos.
Mas esse acordo nunca existiu.
A verdade é que a maternidade impõe limites. E o empreendedorismo também. Os dois exigem presença. Os dois pedem energia, disponibilidade, criatividade e tempo. Fingir que é possível atender a todas essas demandas na mesma intensidade, durante todos os dias da vida, talvez seja uma das receitas mais eficientes para produzir culpa. E, não raro, burnout.
Levei algum tempo para entender que o problema nunca foi a velocidade com que meus projetos caminhavam. O problema era a expectativa de que eles continuassem caminhando exatamente no mesmo ritmo de antes.
A maternidade não deveria ser um convite para desistirmos dos nossos sonhos. Mas talvez seja um convite para fazermos as pazes com o tempo.
Vivemos em uma época que transformou velocidade em sinônimo de sucesso. Queremos crescer rápido, lançar rápido, expandir rápido, aprender rápido. Existe uma ansiedade permanente para chegar ao próximo lugar, como se houvesse uma linha de chegada invisível que precisássemos cruzar antes dos outros.
A maternidade rompe essa lógica. Ela nos lembra, diariamente, que algumas das coisas mais importantes da vida simplesmente não podem ser aceleradas. Uma criança tem o seu tempo para aprender a falar, a andar, a confiar, a crescer. Talvez nós também precisemos reaprender a respeitar o tempo de amadurecimento dos nossos próprios projetos.
Isso não significa abandonar ambições. Significa compreender que elas, por algum período, caminharão em outro compasso.
Empreender durante a maternidade é, antes de tudo, um exercício de inteligência estratégica. Aprender a construir boas parcerias, formar equipes em quem realmente confiamos, aceitar ajuda da família, investir em uma rede de apoio sólida, pessoal e profissional, além de entender que autonomia não significa fazer tudo sozinha. Significa criar as condições para que as coisas continuem acontecendo, ainda que nem todas dependam exclusivamente de nós.
Foi nesse contexto que uma frase do psicanalista Contardo Calligaris passou a fazer ainda mais sentido para mim: “O maior favor que você pode fazer a um filho é ter uma vida própria interessante.”
Quando a li pela primeira vez, interpretei-a como um incentivo para que mulheres não abandonassem suas carreiras. Hoje a escuto de outra maneira.
Ter uma vida interessante não significa viver para o trabalho, nem transformar a carreira na medida do nosso valor. Também não significa tentar provar que damos conta de tudo.
Uma vida interessante pode ser vivida de muitas formas. Ela é feita de curiosidade, de boas conversas, de livros, de amizades, de projetos que nos desafiam, de trabalho que faz sentido, de tempo de qualidade com quem amamos. É uma vida em que a maternidade ocupa um lugar central, mas não precisa ocupar todos os lugares.
Nenhuma criança deveria crescer acreditando que é a única fonte de sentido da vida dos pais. Esse é um peso grande demais para qualquer filho carregar. Da mesma forma, nenhuma mulher deveria acreditar que, para ser uma boa mãe, precisa abrir mão de tudo aquilo que a torna quem ela é.
O maior desafio não é escolher entre maternidade e realização profissional, mas aprender a permitir que ambas coexistam, entendendo que essa convivência terá um ritmo diferente daquele que imaginávamos antes dos filhos.
O sucesso não fala sobre “quem chegou primeiro”. Para mim, ele fala da coragem de respeitar o tempo que cada fase da vida nos pede, sem transformar essa pausa em desistência. Há uma sabedoria silenciosa em entender que nem tudo floresce na mesma estação e que acelerar o tempo raramente produz frutos melhores.
Quando olho para o futuro, não desejo que meu filho encontre uma mãe que deu conta de tudo. Espero que ele se lembre de uma mulher inteira. Alguém que trabalhou, sonhou, errou, desacelerou quando foi preciso e seguiu em frente sem abandonar aquilo que fazia sentido. Porque, no fim, o maior legado que vou deixar a ele é mostrar que é possível construir uma vida interessante sem viver com pressa.
O chá de hoje é um lembrete gentil: nem tudo floresce na mesma estação, e isso não torna o jardim menos bonito. Até a próxima!
Alessandra Lucco
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