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Ciência e Tecnologia • 10:11h • 10 de janeiro de 2026

Neurônios identificados por brasileira em Harvard podem controlar febre e induzir torpor

Grupo internacional de cientistas vislumbra agora a busca de um fármaco que induza o estado em que funções fisiológicas e metabólicas são reduzidas ao extremo, o que poderia favorecer novos tratamentos para AVC e até mesmo auxiliar astronautas em longas viagens espaciais

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Anna Olivella/ Harvard Brain Science Initiative

Natália Machado em seu laboratório na Escola de Medicina de Harvard
Natália Machado em seu laboratório na Escola de Medicina de Harvard

Um estudo liderado pela pesquisadora brasileira Natália Machado, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, identificou uma população de neurônios capaz de regular tanto a febre quanto o torpor — um estado extremo de redução das funções fisiológicas e metabólicas. Publicada na revista Nature, a pesquisa, apoiada pela Fapesp, abre caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos médicos e até para a viabilização de longas viagens espaciais.

Os neurônios estão localizados no núcleo mediano pré-óptico do hipotálamo e são caracterizados pela expressão do receptor de prostaglandina E2 do tipo EP3. Segundo os pesquisadores, quando essas células são inibidas, provocam febre; quando ativadas, induzem o torpor, marcado por uma queda profunda e prolongada da temperatura corporal e do metabolismo.

A coordenadora do estudo explica que o próximo passo será identificar moléculas circulantes responsáveis por essas respostas, com potencial para serem transformadas em medicamentos. O trabalho também conta com a participação do pesquisador Luís Henrique Angenendt da Costa, que realizou pós-doutorado na USP e estágio no laboratório de Machado com bolsa da Fapesp.

Experimentos com camundongos mostraram que, durante o torpor, os animais chegam a reduzir em até 80% o metabolismo. Embora os humanos não entrem naturalmente nesse estado, os cientistas acreditam que esse grupo de neurônios seja evolutivamente conservado, podendo ser ativado ou inibido com o estímulo adequado.

A indução controlada do torpor pode representar um avanço importante no tratamento de condições como o acidente vascular cerebral (AVC), ao permitir que tecidos afetados tolerem por mais tempo a falta de oxigênio. Diferentemente da hipotermia terapêutica atualmente utilizada, a ativação desses neurônios reduz a temperatura corporal sem provocar reações adversas intensas, como tremores e instabilidade cardíaca.

Em um cenário mais distante, a redução do metabolismo também poderia contribuir para longas missões espaciais, como viagens a Marte, ao diminuir a necessidade de energia e alimentos durante trajetos que podem durar cerca de mil dias.

O estudo também aponta possíveis aplicações no controle da febre. Como o aumento da temperatura corporal é uma resposta natural contra infecções, terapias que estimulem esse mecanismo podem beneficiar pessoas com resposta imunológica enfraquecida, como idosos.

Para comprovar o papel desses neurônios, os pesquisadores utilizaram técnicas avançadas, como quimiogenética e optogenética, além de análises em tempo real da atividade neuronal. A eliminação dessas células em camundongos impediu tanto a ocorrência de febre quanto a entrada em torpor, confirmando sua função central na regulação da temperatura corporal.

Agora, a equipe busca formas não invasivas de reproduzir esses efeitos em humanos. De volta ao Brasil por meio do programa Conhecimento Brasil, do CNPq, Costa seguirá investigando os mecanismos da hipotermia associada a infecções graves, como a sepse, com o objetivo de desenvolver novas abordagens terapêuticas.

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