Mundo • 13:53h • 26 de julho de 2026
No Haiti, moradores arriscam a vida para conseguir atendimento médico, alerta Médicos Sem Fronteiras
Violência armada, fechamento de hospitais e falta de acesso a tratamentos agravam crise humanitária em Porto Príncipe, onde pacientes enfrentam barreiras para receber cuidados básicos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações do MSF | Ilustração: Vicky Onélien
Em algumas regiões de Porto Príncipe, capital do Haiti, procurar atendimento médico deixou de ser apenas uma questão de saúde e passou a representar um risco de vida. Em meio aos confrontos entre grupos armados e forças ligadas ao governo, milhares de moradores enfrentam dificuldades para chegar a hospitais, manter tratamentos e receber atendimento em situações de emergência.
Segundo a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), a comunidade de Cité Soleil é um dos exemplos mais críticos dessa realidade. O bairro, dividido em 34 áreas controladas por grupos armados, registra bloqueios constantes, confrontos e restrições de circulação que comprometem o acesso aos serviços de saúde.
Pacientes convivem com doenças sem conseguir chegar ao hospital
Entre os casos relatados pela organização está o de um jovem de 19 anos que convive com asma e depende de acompanhamento médico regular.
Durante períodos de confrontos armados, ele afirma que não consegue deixar sua casa para buscar atendimento. Em algumas crises, a família tenta aliviar os sintomas utilizando água fria, já que sair às ruas pode representar um risco ainda maior.

Segundo a MSF, essa realidade também afeta pacientes com diabetes, hipertensão, epilepsia e outras doenças crônicas que exigem tratamento contínuo.
Violência interrompe funcionamento de unidades de saúde
No início de maio de 2026, confrontos intensos atingiram áreas próximas ao hospital administrado por Médicos Sem Fronteiras em Cité Soleil.
De acordo com Thomas Curbillon, coordenador-geral da organização no Haiti, mais de 40 pessoas com ferimentos por arma de fogo foram atendidas em menos de 12 horas. Um segurança da unidade também foi atingido por uma bala perdida dentro do complexo hospitalar.
Diante da escalada da violência, a organização suspendeu temporariamente as atividades e evacuou pacientes e profissionais. Foi a terceira interrupção das operações da unidade em três anos.

Segundo a MSF, o hospital costuma atender cerca de 150 pacientes por dia, o que evidencia o impacto da paralisação para a população da região.
Sistema de saúde enfrenta colapso
Além da violência, a capacidade do sistema de saúde haitiano também vem sendo reduzida.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) citados pela MSF, apenas 26% das unidades de saúde do país permanecem plenamente funcionais. Muitas foram fechadas, saqueadas ou operam com equipes reduzidas e falta de equipamentos.
Essa situação dificulta o tratamento de doenças crônicas e limita o encaminhamento de pacientes para procedimentos especializados.
Doenças crônicas são a principal causa de morte no país
A Organização Mundial da Saúde aponta que as doenças crônicas representam atualmente a principal causa de morte no Haiti.
Para a MSF, o problema é agravado pela dificuldade de acesso contínuo a medicamentos, pelo alto custo dos tratamentos e pelas barreiras impostas pela violência.
Desde março de 2026, uma parceria entre a organização e a Fundação Haitiana para Diabetes e Doenças Cardiovasculares oferece acompanhamento prolongado a pacientes com hipertensão e diabetes, na tentativa de reduzir internações recorrentes e melhorar a continuidade do tratamento.
Após 15 anos de atuação em Cité Soleil, Médicos Sem Fronteiras afirma que continua adaptando sua resposta à crise humanitária, mas ressalta que o colapso do acesso à saúde exige esforços mais amplos para garantir atendimento seguro e contínuo à população.
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