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Variedades • 14:14h • 25 de janeiro de 2026

No Parque Nacional da Tijuca, araras-canindés voltam ao céu do Rio após 200 anos

Mais aves devem chegar ao Parque Nacional ainda neste ano. Ciência Cidadã será ferramenta fundamental no monitoramento das araras em vida livre na Mata Atlântica

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Gov | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Esta é uma das aves mais emblemáticas do Brasil, predonimante nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.
Esta é uma das aves mais emblemáticas do Brasil, predonimante nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Há mais de 200 anos, as araras-canindés (Ara ararauna) voavam livres no céu do Rio de Janeiro, carregando as cores da bandeira do Brasil pela Mata Atlântica, bioma que abriga mais de 145 milhões de brasileiros. Agora, três araras-canindés retornam para onde sempre foi o seu lar. Elas irão viver livres e cumprir um papel fundamental: ajudar na restauração ecológica da Mata Atlântica do Rio de Janeiro. Fernanda, Fátima e Sueli, que chegaram ao Parque Nacional da Tijuca (PNT) em junho de 2025, ganharam a liberdade no último dia 7 de janeiro.

A iniciativa é realizada pelo Refauna, uma Organização da Sociedade Civil (OSC) brasileira, com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e de diversos parceiros. O envolvimento de todos esses atores representa um trabalho em conjunto que focou, nos últimos sete meses, na aclimatação e na adaptação como processos fundamentais para viabilizar a reintrodução. Desde junho, quando chegaram ao Parque Nacional, trazidas do Parque Três Pescadores (SP), elas permaneceram em um recinto apropriado, reconhecendo o ambiente que foi a casa de seus ancestrais.

Nesse período, passaram por um treinamento gradual, porém intenso, para desenvolver musculatura e aprimorar as habilidades de voo. Aprenderam a evitar a presença humana e iniciaram uma transição alimentar para reconhecer os frutos nativos da floresta onde vão viver. Também foram monitoradas a interação social e as condições físicas de cada animal.

A bióloga do Refauna e coordenadora de Reintrodução das Araras, Lara Renzeti, explica como o projeto começou, os desafios enfrentados e as expectativas. “O planejamento para trazer de volta as araras ao Rio começou em 2018, com destaque para a questão sanitária, que é desafiadora nesta espécie. O período de aclimatação exigiu uma dedicação enorme da equipe. Desejamos que elas se adaptem bem à vida livre e que os moradores e visitantes do Rio de Janeiro tenham, no futuro próximo, a oportunidade de avistar essas aves maravilhosas colorindo o céu da cidade. A reintrodução das araras agora precisa da colaboração dos cariocas, cuidando e valorizando os animais livres como eles devem ser”, diz.

Para a chefe do Parque Nacional da Tijuca, Viviane Lasmar, essa iniciativa é uma vitória para o Rio e um exemplo para o mundo, no que toca à conservação de áreas protegidas e o potencial de trabalhos coletivos. “Daqui pra frente, em conjunto, seremos todos responsáveis pela sobrevivência desses animais em vida livre e, nós do ICMBio, acreditamos que a Ciência Cidadã é a grande aliada neste processo de monitoramento constante”, afirma.

Desde o início, a chegada e a soltura desses animais são resultado de um trabalho coordenado que envolveu exames sanitários constantes, seleção comportamental e extremo cuidado com o bem-estar de cada indivíduo. É por causa do foco na saúde desses animais que uma quarta arara, batizada de Selton, que chegou ao Parque em 2025 junto com as demais e passou por esse ritual, ainda vai aguardar mais um pouco para voar em liberdade. Ele está passando por uma troca de penas e, enquanto esse ciclo não se completa, existe o risco de ele não conseguir realizar voos com segurança.

Monitoramento com a Ciência Cidadã

As araras foram liberadas com anilhas, microchips e colares de identificação e serão monitoradas pela equipe do Refauna. Essa estratégia já foi testada e usada em outros projetos de monitoramento, como o do Instituto Arara-Azul. O monitoramento em vida livre se dará também a partir dos relatos e informações enviadas pela sociedade. A participação ativa de pessoas coletando e disponibilizando dados é conhecida como Ciência Cidadã, e pode ser exercida por qualquer um que tenha interesse em contribuir. Isso pode ser feito por meio de aplicativos gratuitos de registro da fauna silvestre, como o SISS-Geo, desenvolvido pela Fiocruz.

Nele, é possível enviar fotos e informações quando uma das araras for avistada, mesmo sem sinal de internet. No caso das araras, essa abordagem cidadã é amplificada por permitir uma cobertura geográfica que nenhuma equipe de pesquisadores conseguiria sozinha e por garantir um fluxo contínuo de dados, possibilitando que gestores de parques e biólogos tomem decisões baseadas no que está acontecendo no momento.

Além disso, os pesquisadores do Refauna já começaram a interlocução com observadores de aves no Rio e estudam realizar cursos de formação com guias que atuam dentro do Parque Nacional da Tijuca, como forma de promover a educação ambiental.  

Uma aclimatação com muito treino e jabuticaba

Lara explica que, nesses sete meses de aclimatação, as rotinas do treinamento de voo foram do nível básico ao avançado, sempre evoluindo quando todas as araras correspondiam ao que era esperado em cada etapa. Além disso, a equipe observou que as aves interagiram com árvores presentes no recinto de aclimatação e com outros animais nativos.

“Presenciamos alguns quatis entrando no recinto e não houve nenhum risco para nenhuma das duas espécies. O mesmo com um esquilo caxinguelê, que chegou a visitar o local de alimentação. Os macacos-pregos até passaram perto, mas não houve nenhum problema, embora as canindés tenham ficado mais alertas com a presença deles – algo que é normal e esperado por parte delas”, detalha Renzeti.

Apesar de terem sido flagradas comendo até troncos de árvores, o período de aclimatação foi marcado por uma preferência: as jabuticabas. Fruto nativo da Mata Atlântica e encontrado no Parque, introduzido gradualmente na dieta, tornou-se o queridinho das araras. No entanto, Lara ressalta que elas precisarão se adaptar ainda mais.

“Elas terão que aprender a encontrar alimento, já que alguns frutos são sazonais, como a jabuticaba, que não está disponível nesta época do ano. Então, para ajudá-las nessa fase inicial, manteremos uma plataforma de alimentação, composta por ração e frutos comerciais, como banana, manga, goiaba, uva, laranja e coco, enquanto monitoramos. Isso será feito até que encontrem outras opções na floresta, como a macaúba, que elas experimentaram, gostaram e vão ter de buscar sozinhas”, explica.

O futuro das araras na capital fluminense

Fernanda, Fátima e Sueli são pioneiras, mas não serão as únicas. Selton deverá receber, ainda em 2026, a companhia de mais dois ou três casais da mesma espécie. Atualmente, esses animais estão passando por exames sanitários e pela aprovação de toda a documentação necessária, etapas que vêm evoluindo positivamente, de acordo com o Refauna.

A expectativa é que a reintrodução dessa segunda leva de araras possibilite também a reprodução, o que vai permitir a consolidação do retorno dessas aves aos céus de onde nunca deviam ter deixado de voar. A iniciativa prevê uma ampliação gradual do projeto, com a meta de alcançar a reintrodução de 50 araras-canindés ao longo de cinco anos.

O longo caminho da refaunação da Mata Atlântica no estado

A iniciativa responde a um desafio global da conservação: o combate à defaunação, caracterizada pela perda de espécies animais. Segundo estudos, cerca de 90% das espécies de plantas da Mata Atlântica dependem de animais para dispersar suas sementes. Quando uma floresta perde sua fauna, ela também perde, aos poucos, a capacidade de se regenerar. A ausência de dispersores compromete a manutenção das florestas e o funcionamento do ecossistema, mesmo em áreas protegidas.

O cenário é especialmente preocupante na Mata Atlântica. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023, 43% da fauna ameaçada de extinção no Brasil é exclusiva desse bioma, que concentra o maior número de espécies ameaçadas do país. Quando uma espécie é extinta, não é só ela que desaparece; todo um ciclo de vida se desfaz.

O resultado esperado é a consolidação de um modelo de refaunação, capaz de inspirar políticas públicas, orientar novos projetos de conservação e restaurar processos ecológicos fundamentais. 

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