Ciência e Tecnologia • 13:00h • 06 de julho de 2026
O autismo pode ser identificado antes do nascimento? Entenda o que a ciência já sabe
Avanços na genética e no pré-natal ampliam o conhecimento sobre o neurodesenvolvimento, mas especialistas explicam que o diagnóstico continua dependendo da evolução da criança
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da KBessa Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
Os avanços da medicina têm permitido acompanhar com cada vez mais precisão o desenvolvimento do bebê durante a gestação e identificar alterações genéticas associadas a diferentes condições de saúde. No caso do Transtorno do Espectro Autista (TEA), porém, a ciência ainda não dispõe de um exame capaz de confirmar o diagnóstico antes do nascimento. Especialistas afirmam que, embora a genética e o pré-natal forneçam informações importantes, a principal fonte de respostas continua sendo a observação do desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida.
O tema desperta dúvidas frequentes entre famílias que buscam entender até onde a medicina consegue prever alterações no neurodesenvolvimento. Segundo especialistas, a combinação entre acompanhamento pré-natal, investigação genética quando indicada e avaliação clínica da criança representa hoje a estratégia mais completa para identificar necessidades de desenvolvimento de forma precoce.
Genética ajuda a compreender o autismo, mas não oferece um diagnóstico na gestação
De acordo com a ginecologista Karoline Prado, os exames realizados durante o pré-natal evoluíram significativamente e hoje permitem acompanhar a formação dos órgãos, identificar alterações estruturais e detectar diversas síndromes genéticas. No entanto, ela ressalta que não existe um exame pré-natal capaz de diagnosticar o autismo.
A médica explica que o acompanhamento durante a gravidez continua sendo fundamental para monitorar a saúde da gestante e do bebê, além de possibilitar o planejamento de cuidados quando alguma condição é identificada ainda na gestação.
Na área da genética, o conhecimento também avançou de forma expressiva. O médico geneticista Paulo Zattar Ribeiro afirma que centenas de alterações genéticas já foram associadas ao neurodesenvolvimento, mas destaca que o autismo não está ligado a um único gene.
Segundo o especialista, o TEA reúne diferentes manifestações clínicas e pode ocorrer tanto em formas sindrômicas, quando faz parte de uma síndrome genética, quanto em formas não sindrômicas, resultantes de uma combinação complexa de fatores genéticos e biológicos. Nesses casos, a investigação genética, quando indicada, pode contribuir para esclarecer a causa, orientar o acompanhamento clínico e fornecer informações importantes para o aconselhamento das famílias.
O desenvolvimento da criança continua sendo o principal indicador
Apesar dos avanços científicos, especialistas concordam que o diagnóstico do autismo permanece baseado na análise do desenvolvimento da criança ao longo do tempo.
A psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato explica que a avaliação considera aspectos como comunicação, interação social, brincadeiras, aprendizagem, flexibilidade comportamental e resposta aos estímulos do ambiente. Em vez de depender de um único exame, o diagnóstico resulta da observação conjunta desses comportamentos durante a infância.
Segundo a especialista, os primeiros anos de vida concentram informações essenciais para identificar sinais que possam indicar a necessidade de uma avaliação mais aprofundada, permitindo intervenções precoces quando necessário.
Informação ajuda a reduzir a culpa e favorece o acompanhamento precoce
Os especialistas também destacam que o avanço das pesquisas tem contribuído para desfazer mitos relacionados ao autismo. Entre eles, a ideia de que a condição seria consequência de um comportamento específico durante a gestação ou de uma única causa.
Mayra Gaiato observa que muitas famílias chegam aos consultórios procurando uma explicação isolada para o diagnóstico, quando o conhecimento científico atual aponta para uma condição complexa e multifatorial.
Paulo Zattar Ribeiro reforça que a genética vem ampliando a compreensão sobre o neurodesenvolvimento justamente ao demonstrar que respostas simplistas não conseguem explicar uma condição tão complexa.
Para Karoline Prado, a estratégia mais importante continua sendo a soma de um pré-natal bem conduzido, acompanhamento pediátrico regular e atenção aos marcos do desenvolvimento infantil. Esse conjunto de cuidados favorece a identificação precoce de necessidades específicas e amplia as oportunidades de apoio às crianças e às famílias.
À medida que novas pesquisas avançam, a medicina amplia sua capacidade de compreender o neurodesenvolvimento humano. Ainda assim, especialistas destacam que a principal ferramenta para reconhecer o autismo continua sendo a observação cuidadosa do crescimento, das interações e da evolução da criança ao longo dos primeiros anos de vida.
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