Ciência e Tecnologia • 15:53h • 07 de junho de 2026
O que a cannabis medicinal tem a ver com o intestino? Ciência avança na compreensão dessa relação
Presença de receptores do sistema endocanabinoide no trato gastrointestinal ajuda a explicar o interesse crescente em pesquisas sobre doenças inflamatórias e sintomas digestivos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Onix Press | Foto: Divulgação
Durante muito tempo, o intestino foi visto apenas como um órgão ligado à digestão. Hoje, a ciência sabe que ele exerce funções muito mais amplas, participando diretamente da imunidade, do metabolismo, da produção hormonal e até da comunicação com o cérebro.
Nesse cenário, um sistema biológico presente naturalmente no organismo vem despertando o interesse de pesquisadores: o sistema endocanabinoide. Formado por receptores, enzimas e substâncias produzidas pelo próprio corpo, ele atua na regulação de processos como sono, apetite, humor, percepção da dor, resposta inflamatória e equilíbrio interno do organismo.
O que tem chamado a atenção da comunidade científica é a grande concentração desses receptores ao longo do trato gastrointestinal, especialmente os chamados CB1 e CB2. Essa presença ajuda a explicar o crescimento das pesquisas envolvendo cannabis medicinal e saúde intestinal nos últimos anos.
Intestino participa de muito mais do que a digestão
Especialistas explicam que o sistema endocanabinoide funciona como uma rede de comunicação responsável por ajudar o organismo a manter seu equilíbrio fisiológico.
No intestino, essa atuação está relacionada a funções como controle da inflamação, resposta imunológica, motilidade intestinal e interação com a microbiota, conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no sistema digestivo.
Segundo a médica Mariana Maciel, que atua na área de desenvolvimento de terapias à base de cannabis, a presença desses receptores ajuda a entender por que determinadas condições gastrointestinais vêm sendo estudadas sob a ótica do sistema endocanabinoide.
Mariana explica que doenças inflamatórias intestinais, como Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa, apresentam alterações nessa via biológica, o que tem motivado novas pesquisas sobre possíveis estratégias complementares de tratamento.
Estudos investigam impacto em sintomas intestinais
O interesse científico pela área vem crescendo à medida que novos trabalhos são publicados.
Uma revisão divulgada em 2024 na revista científica Cannabis and Cannabinoid Research analisou dezenas de estudos envolvendo pacientes com doenças inflamatórias intestinais. Os pesquisadores observaram melhora em sintomas como dor abdominal, desconforto digestivo, alterações do apetite e qualidade de vida em parte dos participantes avaliados.
Outro estudo publicado no mesmo ano identificou alterações nos níveis de endocanabinoides e nos receptores ligados à resposta imunológica em pacientes com Doença de Crohn, reforçando a hipótese de que essa via pode ter participação importante nos processos inflamatórios intestinais.
Apesar dos resultados considerados promissores, os pesquisadores destacam que ainda são necessários estudos mais amplos para definir protocolos clínicos e compreender melhor quais pacientes podem se beneficiar dessas abordagens.
Pesquisas avançam, mas acompanhamento médico continua essencial
Especialistas reforçam que a cannabis medicinal não substitui tratamentos convencionais já estabelecidos para doenças intestinais. O que vem sendo discutido atualmente é seu possível papel como terapia complementar em situações específicas, sempre com avaliação médica individualizada.
A própria evolução das pesquisas mostra que o intestino está cada vez mais no centro das discussões sobre saúde integral, justamente por sua influência em diversos sistemas do organismo. À medida que a ciência amplia o conhecimento sobre o sistema endocanabinoide, cresce também a compreensão de que processos como inflamação, imunidade, microbiota e saúde digestiva estão profundamente conectados.
Mais do que responder perguntas sobre uma única doença, os estudos ajudam a revelar como diferentes mecanismos do corpo trabalham de forma integrada para manter o equilíbrio e o funcionamento adequado do organismo.
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