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Variedades • 19:00h • 19 de junho de 2026

O trabalho invisível que mantém a sociedade funcionando e quase ninguém reconhece

Artigo discute como o trabalho de cuidado impacta carreiras, renda e desenvolvimento profissional, além de apontar caminhos para empresas e sociedade compartilharem essa responsabilidade

Coluna | Alessandra Lucco | Foto: Divulgação

Sem salário, sem currículo e sem reconhecimento: o trabalho que move a economia
Sem salário, sem currículo e sem reconhecimento: o trabalho que move a economia

O trabalho invisível que sustenta tudo

Essa semana, resolvi trazer novamente a questão do trabalho invisível. Na semana passada, refleti sobre o reconhecimento do trabalho intelectual que, por muitas vezes, permanece invisível aos olhos.

Entretanto, existe outra modalidade de trabalho que é ainda mais invisível aos nossos olhos, e aos do mercado de trabalho.


Em uma das famosas tirinhas de Mafalda, a menina observa a rotina da mãe em meio às tarefas domésticas e faz uma pergunta desconcertante: “Mamãe, o que você gostaria de ser se você vivesse?”

A ironia da cena está justamente no fato de que a mãe está viva, trabalhando e produzindo resultados o tempo todo. No entanto, aquilo que ocupa grande parte de seus dias parece não ser percebido como um trabalho e, além disso, impacta em seu tempo livre e aquilo que realmente gostaria de fazer, se é que diante de todas as responsabilidades, ela consegue imaginar ou conhecer a si mesma para dizer: eu gostaria de fazer isso ou aquilo.

A pilha de roupas, a organização da casa, a louça lavada, o planejamento das refeições, o acompanhamento dos filhos, o cuidado com idosos ou familiares, são atividades essenciais para a manutenção da vida cotidiana, mas que raramente aparecem em indicadores econômicos, currículos profissionais ou avaliações de produtividade.

Trata-se de uma parte do meu objeto de estudo, o chamado “trabalho de cuidado”, que é um conjunto de tarefas indispensáveis para o funcionamento da sociedade e da própria economia. Afinal, ninguém chega ao mercado de trabalho sem que alguém tenha cuidado de sua alimentação, saúde, educação ou bem-estar ao longo da vida.

A questão está na falta de reconhecimento do valor social e econômico dessa atividade de cuidado que, quando tratado como uma obrigação de uma só pessoa, deixa de ser percebido como uma atividade que consome tempo, energia, qualificação e oportunidades.

Essa invisibilidade produz efeitos concretos, como a redução de tempo disponível para qualificação profissional, menor participação em espaços de liderança, interrupções na carreira, dificuldades para empreender e menor autonomia econômica.

Por isso, digo que é necessário olhar para aquilo que acontece antes mesmo da entrada (ou não) das mulheres no mercado de trabalho, como a distribuição das responsabilidades de cuidado no ambiente doméstico e familiar.

Nesse contexto, as empresas possuem um papel estratégico ao reconhecer a importância do cuidado e como ele impacta diretamente a produtividade, a permanência e o desenvolvimento das pessoas dentro das organizações.

Trago algumas soluções viáveis e estratégicas que podem dar início à uma nova forma de reconhecer e valorizar esse trabalho:

  1. Políticas de flexibilização de jornada;
  2. Avaliação por desempenho, considerando essas especificidades;
  3. Apoio à maternidade e à parentalidade;
  4. Programas de acolhimento e iniciativas voltadas à conciliação entre vida profissional e pessoal.

Essas são algumas medidas que valorizam o cuidado com inteligência econômica. Afinal, por trás de praticamente toda atividade produtiva existe alguém realizando um trabalho invisível que permite que ela aconteça.

Talvez seja essa a grande provocação deixada por Mafalda. E você, conhece uma história assim?

Reconhecer o cuidado é o primeiro passo para construir uma sociedade mais justa. O segundo é dividir essa responsabilidade de forma mais equilibrada. Somente assim deixaremos de tratar como invisível aquilo que, na verdade, sustenta tudo o que é visível.

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