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Saúde • 13:01h • 01 de abril de 2025

Os danos não visíveis: como as mudanças climáticas afetam a saúde mental

Especialistas da Ebserh abordam os impactos psicológicos e destacam ações para enfrentar os novos desafios do clima

Da Redação com informações de Agência Gov | Foto: Arquivo Âncora1

Em crianças, as reações podem envolver maior ansiedade de separação, choro frequente, irritabilidade e pesadelos
Em crianças, as reações podem envolver maior ansiedade de separação, choro frequente, irritabilidade e pesadelos

“Fui pega de surpresa ao receber o alerta para sair de casa por causa da enchente. Estava em meio a atendimentos de imprensa relativos aos nossos hospitais atingidos no estado e me vi numa situação de vítima daquilo tudo. Entrei em pânico, não sabia por onde começar a reorganizar minha vida para os dias a seguir. Acabei ficando sete meses fora de casa, pois perdemos quase tudo e foi necessário nos reconstruirmos. O apoio psicológico que recebi no hospital me fez perceber que eu precisava pausar, acolher minhas emoções e ressignificar aquilo tudo que os gaúchos estavam vivendo, inclusive eu.”

Esse o relato é de Mariana Duarte, relações públicas na Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) e chefe da Unidade de Imprensa e Informação Estratégica para as regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste.Mariana mora em Pelotas (RS), às margens da Lagoa dos Patos, e trabalha no Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel).

Há quase um ano, as enchentes, deslizamentos e alagamentos afetaram 95% dos municípios gaúchos. Assim como ela, milhares de brasileiros já enfrentam os impactos dos desastres climáticos, situações que afetam não somente a infraestrutura, mas o cotidiano e a saúde mental das pessoas.

Diante desse cenário, a Ebserh tem se mobilizado para apoiar o Sistema Único de Saúde (SUS) no atendimento aos impactos físicos e emocionais ocasionados pelas mudanças climáticas extreemas. A estatal conta com 45 hospitais universitários federais, nas cinco regiões brasileiras.

Nesta terceira reportagem da série especial “Clima e Saúde”, especialistas abordam como os desastres climáticos podem afetar a saúde mental e a busca por soluções para mitigar os danos à saúde pública.

Apoio emocional e psicológico

A psicóloga hospitalar Luciana Zanetello, do Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC/Ebserh), orientou sobre o impacto psicológico de desastres e como lidar com essas situações.

Segundo ela, entre as respostas emocionais estão pensamentos recorrentes sobre o evento, dificuldade de concentração, irritabilidade, tristeza, medo e mudanças de humor. Já os sintomas físicos incluem fadiga, dores musculares, alterações no sono e apetite, além de problemas gastrointestinais. Em crianças, as reações podem envolver maior ansiedade de separação, choro frequente, irritabilidade e pesadelos.

A psicóloga destacou que a intensidade dessas respostas varia conforme fatores como resiliência individual, nível de exposição ao evento e o apoio recebido. “Embora esses sintomas sejam comuns, geralmente são temporários. Muitas pessoas demonstram resiliência e os sintomas diminuem com o tempo”, apontou.

Luciana reforçou a importância de práticas cotidianas para auxiliar na recuperação, como restabelecer rotinas – “pois ajudam a devolver uma sensação de normalidade e previsibilidade” -, manter uma alimentação equilibrada, praticar exercícios físicos e garantir um sono regular.

Para crianças, momentos de brincadeira, acolhimento e explicações adequadas ao entendimento delas são fundamentais. Técnicas como respiração profunda, meditação e atividades de lazer também podem ser eficazes no manejo do estresse. Além disso, “o apoio social é um dos fatores mais importantes para a recuperação”, afirmou.

Também, segundo a psicóloga, é importante limitar a exposição a notícias sobre o desastre, pois o excesso de informações pode aumentar a ansiedade. “ Se os sintomas persistirem por mais de um mês, prejudicarem o dia a dia ou se houver pensamentos de autoagressão, é fundamental procurar suporte psicológico profissional”, alertou.

Evento científico

Para aprofundar essa questão, de 29 a 31 de maio, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) sediará o Congresso Brasileiro sobre Catástrofes Climáticas (ConBrasCC), organizado em parceria com o Hospital Universitário de Santa Maria (Husm-UFSM) e a Rede Ebserh.

O evento reunirá especialistas e gestores da empresa pública para discutir os desafios e soluções relacionados a desastres como os que afetaram o Rio Grande do Sul há quase um ano.

Documento para a COP 30

O médico do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes da Universidade Federal do Espírito Santo (Hucam-UFES/Ebserh) José Geraldo Mill, também coordena o Grupo de Trabalho na área da Saúde no estado. Esse grupo está elaborando o Plano Estadual de Enfrentamento às Mudanças Climáticas.

“No documento, que deverá ser apresentado na próxima edição da COP 30, elencamos três áreas onde a saúde humana será afetada pelo aumento da temperatura média mundial”, explicou. A COP 30 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025) está prevista para ser realizada de 10 a 21 de novembro de 2025, em Belém, no Pará.

O primeiro impacto, segundo o coordenador, é o aumento da frequência e intensidade das ondas de calor. Temperaturas mais altas podem levar a desidratação e queda da pressão arterial, com riscos maiores para idosos e crianças menores de três anos. “Os idosos que moram sozinhos são os mais vulneráveis a eventos graves, como colapso cardiocirculatório e até morte”, alertou.

O segundo impacto é a expansão das arboviroses, como dengue e febre amarela. “Os mosquitos transmissores dessas doenças se reproduzem mais rapidamente em temperaturas altas. Isso pode dificultar o combate e aumentar a frequência de surtos epidêmicos”, explicou. No entanto, há uma expectativa positiva: o desenvolvimento de vacinas eficazes e em larga escala.

O terceiro impacto apontado por Mill é a intensificação de desastres ambientais, como chuvas torrenciais e queimadas, episódios que tendem a sobrecarregar o sistema de saúde, afetando hospitais e unidades de pronto atendimento. Além disso, a fumaça produzida por queimadas pode agravar problemas respiratórios, como crises de asma e insuficiência respiratória. “Esses eventos já ocorrem com maior frequência, como vimos nas enchentes no Rio Grande do Sul e nas queimadas em todo o Brasil em 2024”, destacou.

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