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Responsabilidade Social • 12:19h • 25 de maio de 2025

Periferia de SP é mais quente, revela pesquisa da USP

Mapeamento das condições sociais e microclimáticas mostrou diferença de até 8,8 ºC entre os distritos estudados

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Governo de SP

Formato dos bairros, materiais de construção utilizados, nível de arborização e espaçamento entre lotes já são algumas evidências para alterações microclimáticas.
Formato dos bairros, materiais de construção utilizados, nível de arborização e espaçamento entre lotes já são algumas evidências para alterações microclimáticas.

Uma urbanização acelerada e o descontrole nas políticas de planejamento podem fazer com que cidades cresçam de forma desigual. Os efeitos disso no bem-estar da população são muitos, incluindo variações no conforto térmico em diferentes bairros. Os resultados de uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mostraram que a produção desigual do espaço urbano é capaz de gerar mudanças nos microclimas da cidade de São Paulo, indicando que regiões periféricas atingem temperaturas mais altas em comparação a áreas nobres.

Pelo mapeamento socioeconômico e pela coleta de dados climáticos em diferentes distritos, foi verificada a importância de uma construção urbana que considere fatores associados à desigualdade social e de renda. Ao estudar as variações microclimáticas de pontos internos e externos de um parque urbano, Fernando Rocha Reis, mestre em Geografia Física na FFLCH e autor da dissertação, quis investigar como aspectos da morfologia urbana moldam as condições de temperatura e umidade de certo local.

“Não queria só medir a temperatura da cidade, queria saber como as pessoas sentem essas diferenças de temperatura de forma desigual”, diz o pesquisador ao Jornal da USP. Ele cita que o formato dos bairros, os materiais de construção utilizados, o nível de arborização e o espaçamento entre lotes já são algumas evidências para essas possíveis alterações microclimáticas.

Temperatura e desigualdade

Para realizar um primeiro mapeamento de desigualdades socioespaciais em São Paulo, Fernando Reis utilizou o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Com essa medida, foi mensurada a qualidade de vida das 32 Subprefeituras do município a partir dos critérios de renda, educação e saúde. Também foi usado o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS), que trabalha com dados em nível distrital. Com isso, o Jardim Paulista e a Vila Jacuí – localizados, respectivamente, nas Subprefeituras de Pinheiros e São Miguel Paulista – foram os distritos escolhidos para a comparação.

Segundo o pesquisador, as duas localidades apresentam nítidas diferenças em suas paisagens urbanas, a começar pelo nível de arborização – fator importante na manutenção do conforto térmico em cidades. Enquanto o Jardim Paulista (IDHM de 0,942) possui mais áreas sombreadas, a região da Vila Jacuí (IDHM de 0,736) tendia para o aproveitamento máximo dos terrenos para construção. Com o mapeamento da temperatura de superfície de cada um dos distritos, o pesquisador verificou que “áreas com índice de temperatura de superfície alta coincidiam com as áreas de IDHMs mais baixos, ou seja, as áreas periféricas”.

Baseado nos mapeamentos, o estudo seguiu para um trabalho de campo em que higrômetros (instrumento usado para medir a umidade relativa do ar) foram usados para aferir as diferenças de temperatura. Os equipamentos, capazes de medir temperatura e umidade relativa do ar, foram instalados em estabelecimentos dos dois distritos e nas hortas das Mulheres do GAU (Grupo de Agricultura Urbana), localizadas na Vila Jacuí. “Deixamos [o higrômetro] coletando dados entre julho e agosto, como o mês representativo do inverno, e entre janeiro e fevereiro, que era o mês representativo do verão”, informa Fernando Reis.

Diferenças microclimáticas

Os resultados da pesquisa indicaram diferenças notáveis de temperatura entre os pontos da Vila Jacuí e do Jardim Paulista, chegando a 7,9 ºC no inverno e 8,8 ºC durante o verão. Para Caroline Freire, doutoranda em Climatologia na FFLCH e pesquisadora de conforto térmico dentro de residências em favelas, essa variação é mais um fator de desigualdade social, já que a combinação de condições precárias de moradia com alterações climáticas extremas pode trazer complicações à saúde de quem convive com ambas, como problemas cardíacos e respiratórios.“Pode gerar, inclusive, uma questão de saúde pública se as pessoas são expostas a essas condições por muito tempo.”

Diante desse cenário, Fernando Reis destaca a importância da presença de áreas verdes em zonas periféricas. Ele explica que as hortas das Mulheres do GAU registraram temperaturas reduzidas em relação ao seus entornos, alcançando uma diferença de até 5,9 ºC no verão para o ponto representativo da Vila Jacuí. Dentro do definido como Soluções Baseadas na Natureza (SbN), essas iniciativas, além de produzirem melhores condições microclimáticas, geram emprego e renda para a comunidade na qual elas estão inseridas.

Os dois pesquisadores declaram que ter em vista as desigualdades dos efeitos climáticos em diferentes parcelas da população é algo essencial para a investigação e a solução de problemas urbanos que se mostram cada vez mais atrelados a emergências climáticas. A aplicação deste e de estudos futuros pode ser “uma forma de ajudar regiões mais vulneráveis a partir dos conhecimentos obtidos dentro da climatologia”, conclui Caroline.

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