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Variedades • 10:33h • 03 de janeiro de 2026

Pesquisador indígena cataloga 150 plantas medicinais de seu território

Material serve para tratar diabetes, hipertensão e verminose

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Hemerson Dantas dos Santos Pataxó Hãhãhãi/Divulgação

A intenção foi resgatar os saberes ancestrais no uso de tais plantas, perdidos ao longo dos tempos.
A intenção foi resgatar os saberes ancestrais no uso de tais plantas, perdidos ao longo dos tempos.

A pesquisa começou com o objetivo de identificar tratamentos para três doenças frequentes entre o povo Pataxó Hã-Hã-Hãi, da Terra Indígena Caramuru/Paraguassu, no sul da Bahia: verminoses, diabetes e hipertensão.

Foi assim que o etnobotânico Hemerson Dantas dos Santos Pataxó Hãhãhãi, integrante da própria etnia e doutorando no Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Unifesp, iniciou seu trabalho. No âmbito acadêmico, ele ampliou o estudo e catalogou 175 plantas medicinais usadas pelo seu povo, buscando resgatar saberes tradicionais que se perderam ao longo do tempo.

Entre as descobertas, Hemerson observou que muitas plantas medicinais empregadas atualmente são espécies exóticas, introduzidas depois na região. Para ele, isso reflete o deslocamento forçado sofrido pelo povo Pataxó Hã-Hã-Hãi e os impactos da devastação ambiental, grilagens e grandes fazendas.

A própria história da Terra Indígena Caramuru/Paraguassu revela essas transformações. Com 54.105 hectares, foi declarada reserva indígena em 1926 pelo Serviço de Proteção ao Índio. Nas décadas seguintes, especialmente a partir dos anos 40 com a expansão da cultura do cacau, fazendeiros invadiram o território e expulsaram muitos indígenas. Nos anos 1970, o governo baiano chegou a extinguir a reserva e conceder títulos de propriedade aos invasores.

Após longos conflitos, a Funai recuperou o reconhecimento do território no início dos anos 1980, mas disputas e tensões seguem ocorrendo. Nesse cenário, Hemerson relata que a cobertura vegetal original foi amplamente destruída, transformada em pastagens, o que dificultou encontrar muitas das espécies citadas pelos anciões — algumas já desaparecidas.

Sua orientadora, Eliana Rodrigues, destaca a importância de recuperar o conhecimento dos mais velhos, que viveram o território antes das expulsões e sabiam identificar plantas que já não existem na paisagem atual.

No levantamento, Hemerson identificou 43 plantas usadas para tratar diabetes, verminoses e hipertensão. O mastruz se destaca no combate às verminoses; a moringa é utilizada para diabetes; e o capim-cidreira, para hipertensão. Além disso, 79% das 175 plantas catalogadas têm usos compatíveis com publicações científicas recentes.

Eliana ressalta que o trabalho não apenas registra, mas também resgata o conhecimento tradicional. Para ela, apesar das perdas, muito ainda foi preservado — como mostra a pesquisa.

A orientadora também aponta a relevância da atuação de Hemerson: um pesquisador indígena estudando a relação do próprio povo com suas plantas. A etnobotânica, área à qual ele se dedica, estuda justamente como diferentes culturas utilizam e se relacionam com as plantas para fins medicinais, alimentares, construtivos e outros.

Os resultados da pesquisa devem originar um livro, um guia de receitas para uso seguro das plantas e um material audiovisual. Também foi instalado um viveiro de plantas em uma aldeia, onde já são cultivadas mudas para distribuição entre as comunidades da região.



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