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Responsabilidade Social • 11:30h • 14 de janeiro de 2026

Controle de emoções: Plataforma nacional usa jogos e biofeedback para ensinar crianças neurodivergentes

Solução apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP combina tecnologia, ciência e terapia para ajudar crianças com TDAH, TEA e ansiedade a desenvolver autorregulação emocional

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações do Governo de SP | Foto: Divulgação

Tecnologia transforma terapia infantil ao ensinar autorregulação emocional em jogos
Tecnologia transforma terapia infantil ao ensinar autorregulação emocional em jogos

Uma crise de ansiedade em sala de aula, uma frustração que vira raiva ou um momento de desorganização emocional. Situações como essas fazem parte da rotina de muitas crianças neurodivergentes. Em vez de recorrer apenas a intervenções tradicionais, uma startup paulista passou a ensinar essas crianças a reconhecer e regular suas próprias emoções por meio de jogos digitais aliados a sensores biométricos.

A solução foi desenvolvida pela Self Intelligence for Life, startup fundada em 2022 em São José dos Campos, e tem como foco crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e sintomas de ansiedade. A plataforma utiliza biofeedback em tempo real e gamificação para transformar técnicas terapêuticas consolidadas, como a respiração controlada, em experiências lúdicas e mensuráveis.

A iniciativa conta com apoio do programa PIPE, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, em parceria com o Sebrae-SP, e nasceu do encontro entre pesquisa científica e uma demanda clínica concreta.

Tecnologia que ensina o corpo a se acalmar

A plataforma funciona a partir de sensores biométricos, disponíveis em formatos como cinta torácica, braçadeira ou clipe de orelha, que monitoram a variabilidade da frequência cardíaca, indicador reconhecido cientificamente para avaliação de estresse. Esses dados são integrados a jogos digitais que reagem, em tempo real, ao estado emocional da criança.

“Quando a criança consegue se acalmar e respirar adequadamente, ela recebe recompensas no jogo”, explica Gabriella Faria, engenheira biomédica e CEO da Self Intelligence for Life. “O sistema monitora continuamente o corpo da criança e reforça positivamente os momentos de autorregulação.”

Atualmente, a plataforma conta com oito jogos, com níveis de complexidade variados. Em um deles, a criança aprende o ritmo respiratório acompanhando uma baleia. Em outro, mais desafiador, precisa organizar objetos enquanto mantém a calma, mesmo sob pressão. Cada sessão dura cerca de três minutos, tempo suficiente para gerar efeitos terapêuticos observáveis.

Origem científica e validação clínica

A ideia surgiu durante o mestrado de Gabriella em engenharia biomédica, quando ela integrava um grupo de pesquisa sobre técnicas não farmacológicas de redução do estresse. A equipe multidisciplinar envolveu engenheiros, neurocientistas, fisiologistas e profissionais da saúde, com destaque para a contribuição clínica da neuropsicopedagoga Renata Casali.

Segundo ela, era comum perder de 15 a 20 minutos das sessões apenas tentando acalmar crianças antes de iniciar as atividades terapêuticas. “Faltavam ferramentas práticas para esse momento”, relatou à equipe. A partir dessa demanda, os pesquisadores validaram o problema por meio de entrevistas e estudos de mercado, dando origem à solução.

Uma resposta a um problema crescente

A tecnologia surge em um cenário de crescimento expressivo dos transtornos emocionais na infância. Dados do Ministério da Saúde mostram que os atendimentos no Sistema Único de Saúde por transtornos de ansiedade em crianças de 10 a 14 anos aumentaram mais de 1.300% entre 2014 e 2024. No mesmo período, as matrículas de estudantes com TEA na educação básica cresceram 44,4%, segundo o Censo Escolar.

Além disso, estudos apontam que a saúde mental infantil segue sendo uma das áreas mais negligenciadas, com acesso limitado a terapias especializadas, sobretudo no setor público.

Uso consciente e papel do terapeuta

A plataforma foi desenhada para uso exclusivamente com acompanhamento profissional. O terapeuta planeja as sessões, seleciona os jogos e apresenta os sensores de forma lúdica, respeitando as particularidades sensoriais de cada criança.

A recomendação de uso

Sessões curtas e regulares. Em casa, até três sessões diárias de três minutos. No consultório, geralmente no início e no fim do atendimento. “Funciona como exercício físico. Não é sobre tempo de tela, mas sobre treino emocional”, reforça Gabriella.

Relatórios gerados pelo sistema permitem acompanhar a evolução da criança e compartilhar dados objetivos com as famílias, fortalecendo o vínculo entre terapia e cotidiano.

Expansão e futuro

A Self Intelligence for Life já comercializa a solução para clínicas privadas e terapeutas autônomos e, atualmente, testa a plataforma em ambiente controlado com a Secretaria de Saúde de São José dos Campos, visando futura adaptação ao SUS. Também há planos de internacionalização: a startup participou da Web Summit, em Portugal, e iniciou contatos para entrada no mercado europeu.

Novos jogos estão em desenvolvimento, incluindo opções voltadas à fala, dificuldades fonéticas e personalização avançada com inteligência artificial. A empresa também estuda versões para outras faixas etárias.

Em um contexto em que uma em cada seis crianças no mundo convive com algum transtorno mental, segundo dados da Faculdade de Medicina da USP, iniciativas como essa apontam caminhos para ampliar o acesso a terapias eficazes, baseadas em ciência, tecnologia e cuidado humanizado.

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