Saúde • 10:21h • 15 de dezembro de 2025
Por que as doenças mentais ainda são um tabu no mundo corporativo
Burnout, ansiedade e depressão avançam nas empresas, mas o medo do julgamento ainda impede o debate aberto
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Digital Trix | Foto: Divulgação
O aumento dos casos de burnout, ansiedade e depressão no ambiente corporativo escancarou um problema antigo, a dificuldade das empresas em lidar de forma aberta e estruturada com a saúde mental de seus profissionais. Mesmo diante de dados alarmantes e impactos diretos na produtividade e na vida pessoal dos trabalhadores, o tema ainda é tratado como tabu em muitas organizações.
Segundo levantamento da Future Form, mais de 40% de um grupo com mais de 10 mil profissionais ao redor do mundo apresentaram sinais de síndrome de burnout em fevereiro deste ano, o maior índice desde maio de 2021. No recorte nacional, o Brasil ocupa a segunda posição mundial em casos diagnosticados, atrás apenas do Japão, conforme dados da International Stress Management Association. Já a Organização Mundial da Saúde estima que 264 milhões de pessoas convivam com quadros de ansiedade e depressão, gerando perdas superiores a US$ 1 trilhão por ano para a economia global.
Para Fábio Cassab, sócio da EXEC, empresa especializada no desenvolvimento de lideranças, o cenário é resultado de um conjunto de fatores que vão além da carga de trabalho. Excesso de cobranças, lideranças despreparadas, ambientes nocivos e a pressão constante por desempenho se somam às demandas da vida pessoal, criando um terreno fértil para o adoecimento emocional.
Cassab afirma que o ambiente corporativo ocupa grande parte do tempo e da energia das pessoas, o que amplia seu impacto sobre a saúde mental. A sobreposição de funções, a autocobrança elevada e a hiperconectividade intensificam o desgaste. Segundo ele, é comum que o corpo dê sinais claros antes de uma crise, como alterações no sono, na memória e na concentração, mas esses alertas costumam ser ignorados até que o limite seja ultrapassado.
O executivo relata que viveu essa experiência há dois anos, quando enfrentou um quadro de depressão após um período prolongado de dedicação extrema ao trabalho e afastamento da vida pessoal. A partir desse processo, passou a enxergar a saúde mental como parte central da discussão sobre liderança e desempenho profissional.
Entre os principais obstáculos para o avanço do debate nas empresas, Cassab aponta duas barreiras recorrentes, a crença de que problemas emocionais não atingem a todos e o preconceito que associa adoecimento mental a fraqueza ou incompetência. Esse estigma, segundo ele, é agravado pela comparação constante com padrões irreais difundidos nas redes sociais, que reforçam a sensação de fracasso e inadequação.
A psicóloga Tania Andref observa que o mundo corporativo hoje se divide entre organizações que adotam uma postura ativa de cuidado e outras que ainda negligenciam o tema. Para ela, líderes tecnicamente preparados nem sempre estão prontos para lidar com questões humanas, o que dificulta o acolhimento de profissionais em sofrimento.
Causas, identificação e acolhimento
Uma pesquisa da consultoria Capita revela que 49% dos trabalhadores não acreditam que seus líderes saibam como agir diante de um problema de saúde mental em suas equipes. O receio de retaliações, julgamentos ou até demissões faz com que muitos profissionais optem pelo silêncio, mesmo diante de sintomas graves.
Outro ponto destacado por especialistas é que nem sempre o trabalho é a origem do problema. Questões familiares, dificuldades de adaptação, problemas de saúde ou crises pessoais também podem desencadear quadros de ansiedade e depressão, que acabam se refletindo no desempenho profissional.
Para ajudar na identificação e no enfrentamento desses quadros, especialistas recomendam atenção a sinais persistentes de desmotivação, alterações no sono e no apetite, dores frequentes e isolamento social. Buscar ajuda especializada e reduzir a autocobrança são passos fundamentais para evitar o agravamento do quadro.
Cassab destaca que, ao longo das últimas décadas, a lógica de sucesso profissional mudou. Se antes o foco estava em carreira, estabilidade e salário, hoje o discurso gira em torno de felicidade e propósito, conceitos mais abstratos e difíceis de sustentar sem equilíbrio emocional. Para ele, enfrentar o tabu da saúde mental é uma condição indispensável para construir ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos.
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