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Ciência e Tecnologia • 14:28h • 23 de agosto de 2026

Por que boa parte dos dados brasileiros ainda precisa sair do país para ser processada

País reúne vantagens para ampliar data centers, mas importação de chips, custos de hardware e falta de profissionais especializados ainda limitam a expansão da infraestrutura nacional

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Divulgação

Brasil avança em inteligência artificial, mas ainda depende do exterior para processar seus próprios dados
Brasil avança em inteligência artificial, mas ainda depende do exterior para processar seus próprios dados

A inteligência artificial já ganhou espaço na rotina de empresas, serviços públicos e consumidores brasileiros, mas boa parte da estrutura necessária para manter essas ferramentas funcionando continua fora do país. Cerca de 60% das cargas digitais brasileiras são processadas no exterior, enquanto o Brasil representa apenas 2% do mercado mundial de data centers, segundo dados apresentados por Eduardo Glazar, CSO da Globalsys.

A dependência também aparece nos equipamentos. De acordo com o executivo, todas as GPUs utilizadas atualmente no Brasil são importadas. Esses processadores ganharam importância com o avanço da IA por serem utilizados no treinamento e na execução de modelos que exigem grande capacidade computacional.

O cenário coloca em discussão não apenas a expansão do setor tecnológico brasileiro, mas também a capacidade do país de armazenar e processar localmente uma parcela maior dos dados que produz. “Quando o dado sai daqui pra ser processado lá fora, soberania vira palavra de discurso”, afirma Glazar.

Brasil tem energia favorável, mas equipamentos continuam caros

Uma das vantagens brasileiras na disputa por novos investimentos está na matriz elétrica majoritariamente renovável. A disponibilidade de energia é especialmente relevante para data centers, estruturas que concentram grande quantidade de servidores e apresentam elevado consumo energético.

Segundo Glazar, esse diferencial poderia contribuir para atrair até US$ 33 bilhões em investimentos nos próximos anos. O potencial, porém, convive com um entrave importante: as tarifas incidentes sobre a importação de determinados equipamentos tecnológicos podem chegar a 100%, encarecendo a implantação da infraestrutura.

A avaliação do executivo é que o Brasil não precisa disputar, no curto prazo, a liderança mundial dos chamados modelos de fronteira, desenvolvidos com enorme capacidade computacional. Uma alternativa seria concentrar esforços em tecnologias e modelos destinados a necessidades específicas do próprio país.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23 bilhões em investimentos ao longo de quatro anos. Embora o montante seja pequeno quando comparado aos aportes realizados individualmente por grandes companhias internacionais de tecnologia, Glazar considera que os recursos podem ajudar a desenvolver soluções nacionais e ampliar a estrutura disponível no Brasil.

Falta de profissionais amplia o desafio

Construir data centers e aumentar a capacidade de processamento, entretanto, resolve apenas uma parte da questão. A expansão da IA também exige profissionais capazes de desenvolver sistemas e operar uma infraestrutura cada vez mais complexa.

O Brasil forma aproximadamente 53 mil profissionais de tecnologia por ano, enquanto a demanda anual supera 150 mil vagas. Mantido esse descompasso, a projeção apresentada é de um déficit acumulado superior a 500 mil profissionais até 2029.

A diferença significa que, para cada profissional formado anualmente, existem quase três posições demandadas pelo mercado. A formação de mão de obra passa, portanto, a caminhar junto com os investimentos físicos necessários para ampliar a capacidade tecnológica brasileira.

Para Glazar, reduzir a dependência externa exige justamente combinar essas duas frentes. Novos data centers, maior acesso a equipamentos e investimentos em inteligência artificial precisam ser acompanhados pela qualificação de profissionais capazes de desenvolver, operar e aprimorar essas tecnologias.

Nesse cenário, o desafio brasileiro não está apenas em trazer para dentro do país uma parcela maior do processamento de dados, está também em criar condições para que essa infraestrutura seja utilizada para desenvolver soluções próprias, voltadas às necessidades brasileiras, em vez de ampliar a capacidade instalada sem reduzir a dependência tecnológica.

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