Variedades • 14:12h • 22 de julho de 2026
Por que tanta gente ainda esconde que faz terapia? Especialista explica o tabu familiar
Como crenças antigas, medo de julgamento e dificuldade para falar sobre emoções ainda afastam muitas pessoas do cuidado com a saúde mental
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Nova Ideia | Foto: Arquivo/Âncora1
Apesar de o debate sobre saúde mental ganhar cada vez mais espaço, falar sobre terapia ainda provoca desconforto em muitas famílias. Em vez de apoio, quem decide procurar ajuda psicológica ou terapêutica pode ouvir comentários como "isso é coisa da sua cabeça", "você precisa ser mais forte" ou "na minha época ninguém fazia terapia". Essas reações revelam que o preconceito em torno do cuidado emocional ainda está presente em muitos lares.
Segundo a terapeuta e empresária Tatiana Pacher Nazato, essa resistência costuma estar ligada às histórias familiares e à forma como diferentes gerações aprenderam a lidar com sofrimento, conflitos e vulnerabilidade. Em muitos casos, demonstrar emoções foi interpretado durante décadas como sinal de fraqueza, criando um ambiente em que buscar ajuda parece algo inadequado.
Julgamento ainda afasta pessoas do cuidado emocional
O Ministério da Saúde reconhece o estigma relacionado à saúde mental como uma barreira importante para o acesso ao tratamento. De acordo com o órgão, o preconceito afeta não apenas quem enfrenta sofrimento psíquico, mas também familiares, serviços de atendimento e as próprias formas de cuidado.
Para Tatiana Pacher Nazato, muitas pessoas não têm receio apenas da terapia em si, mas da reação que encontrarão dentro da própria família. "Quando uma família aprendeu que sentir é sinal de fragilidade, pedir ajuda pode parecer uma ruptura. Muitas pessoas não têm medo apenas da terapia, mas do julgamento que pode vir depois dela", explica.
Essa visão faz com que o acompanhamento terapêutico seja associado apenas a situações extremas ou a transtornos graves, deixando de ser compreendido como um espaço de autoconhecimento, desenvolvimento emocional e fortalecimento das relações.
Mudanças pessoais também podem gerar resistência
O processo terapêutico costuma provocar transformações na forma como a pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros. Aprender a estabelecer limites, reconhecer emoções e rever comportamentos pode modificar dinâmicas familiares que existiam há muitos anos.
Sob a perspectiva sistêmica, essas mudanças nem sempre são recebidas com naturalidade. Afinal, quando alguém deixa de agir apenas por culpa, medo ou obrigação, toda a estrutura das relações pode ser impactada.
Segundo a especialista, o tabu em torno da terapia frequentemente revela uma dificuldade coletiva de lidar com a vulnerabilidade. Ao buscar ajuda, a pessoa pode trazer à tona temas que permaneceram em silêncio durante gerações, provocando desconforto, mas também abrindo espaço para relações mais saudáveis.
Diferenças entre gerações ajudam a explicar o cenário
Pais e avós cresceram em uma época em que falar sobre saúde mental era pouco comum e, muitas vezes, as emoções precisavam ser reprimidas. Já filhos e netos convivem com discussões mais frequentes sobre ansiedade, autoestima, limites e bem-estar emocional.
Esse encontro entre diferentes formas de compreender o sofrimento pode gerar conflitos, mas também representa uma oportunidade para ampliar o diálogo dentro das famílias.
Para Nazato, fazer terapia não significa romper com a história familiar, mas compreender melhor os próprios vínculos. O processo pode ajudar cada pessoa a identificar o que deseja preservar em suas relações e o que precisa ser transformado para construir uma vida emocional mais equilibrada, sem depender da aprovação dos outros para cuidar da própria saúde mental.
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