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Economia • 16:32h • 29 de agosto de 2025

Procons alertam: ludopatia e dívidas causadas por bets se tornam problema nacional

Órgãos de defesa do consumidor apontam aumento nas reclamações e especialistas alertam para consequências sociais e financeiras das plataformas de apostas

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Assessoria de Imprensa do Procon e Abrasel | Foto: Arquivo/Âncora1

Superendividamento, queda no consumo e adoecimento mental colocam apostas online em debate nacional
Superendividamento, queda no consumo e adoecimento mental colocam apostas online em debate nacional

O avanço das apostas online no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno digital e já preocupa autoridades, empresários e órgãos de defesa do consumidor. Durante a 36ª Reunião da Senacon com o Sistema Nacional do Consumidor e o XXIII Congresso do MPCON, realizado em Porto Alegre, representantes de Procons de todo o país destacaram a explosão de reclamações envolvendo as chamadas “Bets” e a relação direta com o aumento de casos de superendividamento. Um documento com propostas será enviado à Senacon, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, para orientar ações conjuntas em todo o país.

Para Luiz Orsatti Filho, diretor executivo do Procon-SP, presidente do Colegiado Nacional de Procons Estaduais e 1º secretário da Associação Procons Brasil, a situação é grave. “Estes dois assuntos estão no topo das preocupações atuais dos órgãos de defesa do consumidor, com o agravante de estarem se disseminando em todo o Brasil, com um potencial de impacto severo na vida de um número elevado de consumidores e suas famílias“, afirmou.

O alerta não se restringe às estatísticas de endividamento, mas também ao impacto econômico que já atinge setores como bares e restaurantes, especialmente em cidades do interior. Dados da ABMES mostram que entre 2024 e 2025 o número de apostadores que deixaram de frequentar estabelecimentos de alimentação subiu de 24,8% para 28,5%. A SimilarWeb aponta que, em maio deste ano, as plataformas de apostas já eram o segundo site mais acessado do país, atrás apenas do Google.

Esse fenômeno se reflete diretamente no cotidiano de empresários e trabalhadores. Comerciantes relatam queda no consumo presencial e queda de desempenho de funcionários afetados emocional e financeiramente por perdas em apostas digitais. Parte da dificuldade na contratação de mão de obra, apontada por 61% dos empresários pesquisados pela Abrasel, estaria ligada à ilusão de enriquecimento rápido propagada pelas plataformas, que desestimula jovens a buscar empregos formais e formação técnica.

O perfil dos apostadores também preocupa. A pesquisa da ABMES revela que 37% estão na classe C e 12% nas classes D e E, ou seja, quase metade pertence a grupos de menor renda, mais vulneráveis aos prejuízos financeiros. A crença em ganhos fáceis contrasta com a realidade: a maior parte do dinheiro retorna para as próprias empresas de apostas, enquanto famílias se veem diante de dívidas crescentes.

Para o psicólogo Paulo Jelihovschi, líder de Gentes e Jornadas da Abrasel, a situação tem um forte componente de saúde mental. “A pessoa saturada mentalmente pelos jogos não consegue desenvolver as tarefas do cotidiano, não consegue manter a atenção e passa a viver em um estado de exaustão e dependência”, alerta. A ludopatia, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como doença, atinge segundo a Unifesp cerca de 10,9 milhões de brasileiros em nível de risco.

Com consumidores endividados, queda de consumo em pequenos negócios e aumento no adoecimento mental, o problema já extrapola a esfera individual e se transforma em questão social e econômica. Para especialistas e órgãos de defesa, a regulamentação precisa vir acompanhada de fiscalização e de campanhas de conscientização, não apenas para os jogadores, mas também para influenciadores que seguem promovendo as “bets da sorte” sem alertar sobre os riscos.

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