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Responsabilidade Social • 09:23h • 30 de março de 2025

Produção de alimentos reforça crise climática e sofre consequências

Modelos alternativos como agroecologia devem ser fortalecidos

Agência Brasil | Foto: João Garrido/CMCG

Secas, ondas de calor e inundações são responsáveis por perdas de lavouras, aumento no preço dos alimentos e problemas na cadeia de suprimento.
Secas, ondas de calor e inundações são responsáveis por perdas de lavouras, aumento no preço dos alimentos e problemas na cadeia de suprimento.

Os sistemas atuais de produção de alimentos estão entre os principais responsáveis pelas mudanças climáticas e pela perda de biodiversidade terrestre, respondendo por um terço das emissões de gases do efeito estufa e por 70% do uso de água doce. Ao mesmo tempo, esse mesmo sistema é altamente vulnerável a eventos climáticos extremos provocados por essas alterações no clima.

Secas, ondas de calor e inundações são responsáveis por perdas de lavouras, aumento no preço dos alimentos e problemas na cadeia de suprimento.

Outro risco surgido com as mudanças climáticas é a redução da disponibilidade de alguns nutrientes importantes para a dieta humana, como ferro, zinco e até mesmo proteínas.

Estudos realizados por três pesquisadores da Universidade de Harvard, em 2017 e 2018, estimaram que aumento das emissões de dióxido de carbono podem provocar reduções de 3% a 17% desses nutrientes em itens de alimentação básica. O resultado disso seriam, até 2050, 175 milhões de casos adicionais de deficiência de zinco e 122 milhões de pessoas com deficiência proteica. Estima-se também um aumento do risco de deficiência de ferro para 1,4 bilhão de mulheres e crianças.

As mudanças climáticas são um dos temas discutidos por representantes de governos e especialistas reunidos na cúpula Nutrition for Growth (N4G), ou seja, Nutrição para o Crescimento, que ocorreu até sexta-feira (28), em Paris.

Para Arlène Alpha, especialista do Cirad, órgão francês de pesquisa agronômica, o principal modelo de produção de alimentos hoje, baseado em grandes campos abertos de monoculturas, com processos padronizados e uso intensivo de agrotóxicos e de água, está fadado ao fracasso.

"Esse sistema de produção foi, na verdade, capaz de fornecer comida barata, mas o problema é o custo oculto disso. Os custos são muitos na nutrição e na saúde, mas também no meio ambiente, na perda de biodiversidade e nas mudanças climáticas", explica a especialista.

Segundo ela, não há uma fórmula mágica para resolver o problema, mas há sistemas alternativos que têm bem menos impactos na saúde humana e no meio ambiente, e eles devem ser incentivados. Exemplos são técnicas de agroecologia e o uso de uma abordagem territorial, com o aproveitamento de recursos locais e conhecimentos indígenas.

"A agroecologia é uma alternativa ao sistema industrializado de produção de alimentos. Ela é baseada em práticas econômicas que são serviços ecológicos, mas não é só isso. É também sobre o empoderamento das mulheres, é sobre dar autonomia aos produtores acerca das sementes e ao direito de não usar produtos químicos. É também sobre conectar produtores e consumidores", afirma Arlène.

A primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva, que participa da N4G, disse que o agronegócio, um setor forte no Brasil, tem sua importância, mas que é preciso também olhar para o seu impacto nas mudanças climáticas.

"O mundo em que vivemos não vai mais suportar o modelo de grande produção de alimentos, por isso, o investimento nos médios e pequenos agricultores familiares, talvez, seja a forma mais sustentável de enfrentarmos as mudanças climáticas. O grande produtor continua a ter importância, mas eles também precisam entender que o comprometimento com o meio ambiente é importante".

Inovação em favor do clima

País que já sofre com condições climáticas adversas para a produção de alimentos, devido às altas temperaturas, baixa qualidade do solo e escassez hídrica, os Emirados Árabes Unidos apostam na inovação e pesquisa, conta a ministra das Mudanças Climáticas, Amna Al Shamsi.

"Através da inovação e da pesquisa científica, podemos conseguir saltos na nossa produção agrícola e no nosso desenvolvimento, podemos implementar um modelo de agricultura mais sustentável. Um dos nossos prinicipais indicadores de performance é reduzir o desperdício agrícola em 50% até 2030. Outro é adotar práticas mais inteligentes em termos de clima em 30% das nossas fazendas", afirmou.

Com um trabalho voltado principalmente para fornecer comida a pessoas afetadas por crises, entre elas desastres climáticos, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) conta com o uso de dados e previsões climáticas para atuar em um futuro de eventos climáticos extremos mais frequentes.

"Em colaboração com a Organização Meterológica Mundial, a Agência Espacial Europeia, a Nasa, Google e outros, nós usamos dados para prever quando haverá algum clima extremo, como secas ou enchentes, e agir antes que isso aconteça", afirma Virginia Arribas, vice-diretora de Parcerias Privadas da WFP.

A N4G reúne representantes de governos, empresas e sociedade civil, de quatro em quatro anos, e é organizada desde 2013 por países que foram anfitriões das olimpíadas. A exceção foi o Brasil, já que a cúpula de 2017 foi em Milão. Entre os principais objetivos estão garantir compromissos políticos e financeiros do setor público, privado, de entidades filantrópicas, de organismos internacionais e de organizações não governamentais.

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