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Saúde • 08:28h • 16 de dezembro de 2025

Professora da USP analisa causas da baixa vacinação no Brasil e no exterior

Uma das conclusões foi que a hesitação em vacinar expressa disputas simbólicas, desigualdades e modos diversos de cuidado

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1

Uma das abordagens que se mostraram mais eficazes foi apresentar a vacinação não apenas pelos riscos da doença, mas apontando a segurança e eficácia da vacina
Uma das abordagens que se mostraram mais eficazes foi apresentar a vacinação não apenas pelos riscos da doença, mas apontando a segurança e eficácia da vacina

Nos últimos 13 anos, a antropóloga Márcia Couto, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), tem se dedicado a um tema que, de tão emergente, nem sequer tinha um termo formal até 2014, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) oficializou o conceito de hesitação vacinal – o atraso ou a recusa em aceitar vacinas recomendadas, mesmo quando os serviços de vacinação estão disponíveis. A OMS considera esse comportamento uma das dez maiores ameaças à saúde global.

A primeira contribuição que o grupo da pesquisadora do Departamento de Medicina Preventiva da FM-USP trouxe para o campo veio de uma então aluna de pós-graduação, que é médica pediatra infectologista.

“Ela vinha notando que pais de alta renda e escolaridade não estavam vacinando seus filhos”, disse Couto, palestrante do quarto dia da Escola Interdisciplinar Fapesp: Humanidades, Ciências Sociais e Artes, ocorrida no Instituto Principia, em São Paulo, entre 1º e 5 de dezembro.

A partir da inquietação de sua aluna, Couto desenvolveu uma série de estudos em que busca compreender, tanto pelo recorte de classe e escolaridade quanto de gênero e raça, as razões para a hesitação vacinal dentro do Brasil e em comparação com outros países tanto do Norte quanto do Sul Global.

Num dos estudos, foram analisadas 44 famílias de duas capitais brasileiras, São Luís (MA) e Florianópolis (SC), e outra da África do Sul, Capetown, num total de 62 pais ou cuidadores de crianças até 5 anos. Uma das conclusões foi que a hesitação em vacinar expressa disputas simbólicas, desigualdades e modos diversos de cuidado.

Para as famílias de baixa renda, os obstáculos são de cunho prático: acesso, tempo, esquecimento e atendimento precário. Para as de maior escolaridade e renda, as razões são geralmente críticas à indústria farmacêutica, valorização da autonomia parental e a percepção da vacina como a ameaça, em vez da doença, como se os eventuais efeitos adversos fossem mais perigosos do que a enfermidade em si.

No caso da Covid-19, a não vacinação passa a ser instrumentalizada no Brasil, lembrou a pesquisadora, citando protestos contra as vacinas.

Em outros trabalhos, publicados entre 2014 e 2018, portanto antes da pandemia de Covid-19, o grupo da professora já havia levantado algumas crenças e percepções usadas como justificativas para a hesitação vacinal, observadas tanto em países do Sul como do Norte Global.

Antes mesmo dos “sommeliers de vacina” da pandemia, críticas à composição e aos mecanismos dos imunizantes e a desconfiança em relação à indústria farmacêutica já eram fatores apontados. Além disso, a crença de que a doença em questão não é grave, é rara ou foi eliminada – paradoxalmente, justamente pelo efeito da vacinação em massa – foi outro fator relatado. Soma-se o medo de efeitos adversos e uma valorização da imunidade natural sobre a imunidade vacinal, somada à crença de que hábitos de vida saudáveis dispensariam a vacinação.

Para a pesquisadora, a eliminação ou redução da hesitação vacinal deve ser enfrentada como uma tarefa essencial para a saúde pública, buscando-se tanto compreendê-la como desenvolvendo formas de superá-la.

Em estudo fruto de projeto apoiado pela Fapesp, seu grupo testou diferentes formas de comunicar a importância da vacinação de maneira efetiva. Uma das abordagens que se mostraram mais eficazes foi apresentar a vacinação não apenas pelos riscos da doença, mas apontando a segurança e eficácia da vacina. “Essa abordagem se mostrou mais efetiva para diminuir a resistência das pessoas às vacinas”, contou.

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