Saúde • 09:06h • 28 de fevereiro de 2026
Programa capacita profissionais da atenção básica para ampliar cuidado em saúde mental no SUS
Profissionais da atenção primária atendem casos leves e moderados
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
Diante do aumento da demanda por atendimento psicológico e psiquiátrico no país, um programa experimental vem sendo adotado em pelo menos duas cidades brasileiras para reforçar o cuidado em saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS).
Desenvolvido pela organização sem fins lucrativos ImpulsoGov, sediada em São Paulo, o Programa de Saúde Mental para Atenção Primária à Saúde (Proaps) está em fase de testes em Aracaju e Santos. A proposta é capacitar enfermeiros e agentes comunitários de saúde para oferecer acolhimento estruturado a pacientes com sintomas leves ou moderados de transtornos mentais, sob supervisão de psicólogos e psiquiatras vinculados à Rede de Atenção Psicossocial ou contratados pela entidade.
O programa também chegou a ser implementado em São Caetano do Sul (SP), mas foi encerrado sem justificativa detalhada por parte da prefeitura.
A saúde mental preocupa 52% dos brasileiros, e 43% relatam dificuldades de acesso ao atendimento, seja pelo custo ou pela demora na rede pública. O Proaps segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do SUS. A formação inclui 20 horas de conteúdo teórico, e casos considerados graves são encaminhados para a rede especializada.
Os acordos para capacitação são firmados diretamente com os municípios, que têm autonomia para adotar iniciativas de qualificação profissional. Segundo a ImpulsoGov, os primeiros resultados apontam redução média de 50% nos sintomas depressivos entre pacientes acompanhados, além de diminuição nas filas por atendimento especializado.
Questionamentos sobre delegação de competências
A proposta, no entanto, gera ressalvas. Sem avaliar diretamente o programa, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) manifestou preocupação quanto aos limites da delegação de competências. A entidade lembra que o SUS já adota o “matriciamento”, estratégia de integração multiprofissional que articula saúde mental e atenção primária sem substituir a atuação de psicólogos e psiquiatras.
Para o conselho, o enfrentamento da alta demanda exige investimentos estruturantes, como fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), ampliação de equipes e contratação de especialistas por concurso público.
Dados do Boletim Radar SUS 2025 indicam que, apesar do aumento de 160% no número de psicólogos no país entre 2010 e 2023, a proporção desses profissionais atuando no SUS diminuiu, ampliando desigualdades regionais, especialmente no Norte e Nordeste.
O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) informou que não tinha conhecimento do projeto. A entidade destacou que enfermeiros da Atenção Primária já recebem capacitação para atender casos leves e moderados, encaminhando situações graves aos Caps. O Cofen também ponderou que atividades privativas da enfermagem não devem ser supervisionadas por profissionais de outras categorias, e ressaltou que a proposta se assemelha a diretrizes já previstas na Política Nacional de Atenção Básica, como o apoio matricial.
Defesa da proposta
A coordenadora de produtos da ImpulsoGov, Evelyn da Silva Bitencourt, afirma que o objetivo não é substituir especialistas, mas qualificar profissionais que já atuam na porta de entrada do sistema. Segundo ela, a saúde mental está entre os cinco principais motivos de atendimento na atenção básica.
Após identificar o sofrimento emocional — com instrumentos como o PHQ-9, utilizado para rastrear sintomas depressivos — o profissional decide se o paciente pode ser acompanhado na própria unidade, em até quatro encontros com protocolo estruturado, ou se deve ser encaminhado à rede especializada.
Para a coordenadora, a iniciativa complementa o matriciamento ao oferecer ferramentas adicionais às equipes da atenção primária e fortalecer a articulação com os serviços especializados.
Autonomia e investimentos
O Ministério da Saúde informou que estados e municípios têm autonomia para implementar iniciativas de qualificação, conforme o modelo de gestão tripartite do SUS. A pasta destacou que o Brasil conta com mais de 6,27 mil pontos de atenção em saúde mental, incluindo cerca de 3 mil Caps, e que o investimento federal na área cresceu 70% entre 2023 e 2025, alcançando R$ 2,9 bilhões no último ano.
Resultados nas cidades-piloto
Em Aracaju, o programa foi implementado por meio de acordo firmado em 2024 e renovado até 2027. No primeiro ano, 20 servidores de 14 unidades realizaram 472 atendimentos iniciais, sendo que mais da metade dos pacientes acessava o serviço pela primeira vez. Os resultados indicam redução média de 44% nos sintomas depressivos e melhora de quase 41% na percepção subjetiva do humor. A rede municipal conta com 28 psicólogos e cinco médicos de saúde mental, que atendem cerca de 1.950 pacientes por mês.
Em Santos, onde o programa começou em outubro de 2025, 314 usuários foram atendidos entre dezembro e janeiro. O município avalia ampliar a capacitação para mais profissionais da atenção primária. Atualmente, a cidade dispõe de 127 especialistas distribuídos em 13 unidades de saúde, entre Caps, Serviços de Reabilitação Psicossocial e Residências Terapêuticas.
As prefeituras afirmam que os resultados ainda são parciais, mas indicam a importância da qualificação das equipes da atenção básica para ampliar o acesso da população ao cuidado em saúde mental.
Aviso legal
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, integral ou parcial, do conteúdo textual e das imagens deste site. Para mais informações sobre licenciamento de conteúdo, entre em contato conosco.
Últimas Notícias
As mais lidas do mês
Política
Lula ou Flávio Bolsonaro? Veja onde consultar propostas, histórico e informações antes de votar
Programas de governo em PDF, registros do Senado, despesas federais e plataformas de checagem permitem comparar os candidatos à Presidência com informações oficiais e documentos públicos