Responsabilidade Social • 20:55h • 06 de julho de 2026
Quatro crianças ficam órfãs por dia após feminicídios no Brasil, aponta levantamento
Crescimento dos casos amplia debate sobre o atendimento aos filhos das vítimas, que enfrentam perdas familiares, impactos emocionais e desafios sociais
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Weber | Foto: Arquivo/Âncora1
O aumento dos casos de feminicídio no Brasil também evidencia uma consequência que muitas vezes recebe menos atenção: o número de crianças e adolescentes que perdem a mãe em decorrência desse tipo de crime. Levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem/UEL) estima que, em média, quatro novos órfãos do feminicídio surgem por dia no país, realidade que amplia o debate sobre a necessidade de políticas públicas voltadas ao acolhimento dessas vítimas indiretas da violência.
O cenário acompanha o crescimento dos feminicídios registrados em 2025. Segundo o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Lesfem, foram contabilizados 2.149 assassinatos de mulheres por razões de gênero, uma média próxima de seis mortes por dia. O estudo destaca que esse número supera os registros oficiais e aponta para a existência de subnotificação.
Maioria dos crimes acontece dentro do círculo familiar
A análise dos casos mostra que os autores dos feminicídios, na maior parte das ocorrências, mantinham ou mantiveram relacionamento com as vítimas.
De acordo com o levantamento, 46,28% dos crimes foram praticados pelo parceiro íntimo e 33,15% pelo ex-parceiro. Somados, esses dois grupos respondem por quase 80% dos feminicídios registrados na pesquisa.
Essa característica faz com que muitas crianças enfrentem uma dupla ruptura familiar. Além da perda da mãe, frequentemente o pai é preso por ser o autor do crime ou deixa de conviver com os filhos em razão do processo criminal ou de outras circunstâncias relacionadas ao caso.
Impactos vão além da perda familiar
Especialistas apontam que o feminicídio provoca consequências que ultrapassam o momento da violência. Crianças e adolescentes podem passar a viver com avós, outros parentes ou, na ausência de familiares aptos ao acolhimento, serem encaminhados para instituições de acolhimento.
Estudos citados pelo levantamento indicam que essas crianças apresentam maior risco de desenvolver transtornos relacionados ao trauma, além de dificuldades emocionais e comportamentais que podem comprometer o desenvolvimento ao longo da infância e da adolescência.
A situação pode ser agravada por dificuldades financeiras, mudanças bruscas na rotina familiar e necessidade de reorganização da rede de apoio.
Lei garante pensão, mas especialistas apontam necessidade de ampliar o suporte
Desde 2023, o Brasil conta com a Lei nº 14.717, que instituiu uma pensão especial destinada aos órfãos do feminicídio em famílias com renda per capita inferior a um quarto do salário mínimo.
Embora a medida represente um avanço, especialistas apontam que ainda existem desafios para sua implementação, como a identificação dos beneficiários, a subnotificação dos casos e a dificuldade de acesso aos serviços públicos em algumas regiões do país.
Além do auxílio financeiro, pesquisadores defendem a ampliação de políticas voltadas ao atendimento psicológico especializado, acompanhamento social, acesso à educação e fortalecimento das redes de proteção para crianças e adolescentes atingidos por esse tipo de violência.
Para os estudiosos da área, olhar para os órfãos do feminicídio significa reconhecer que os impactos da violência contra a mulher ultrapassam a vítima direta e alcançam toda a estrutura familiar, exigindo respostas permanentes do poder público e da sociedade.
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