Responsabilidade Social • 19:29h • 19 de fevereiro de 2026
Quem vai cuidar de você na velhice?
Porto Alegre antecipa dilemas de um Brasil que envelhece com menos filhos e mais idosos vivendo sozinhos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Baronesa | Foto: Arquivo/Âncora1
O avanço da longevidade e a redução no número de filhos estão redesenhando a estrutura familiar no Brasil. Em Porto Alegre, 28,5% dos domicílios já são unipessoais, muitos deles ocupados por pessoas com mais de 60 anos. Segundo o IBGE, mais de 43 mil idosos vivem sozinhos na capital gaúcha. O cenário reflete uma transformação demográfica acelerada, marcada por queda na taxa de fecundidade, aumento da expectativa de vida e migração de jovens, o que levanta uma questão central: quem cuidará dessa população nas próximas décadas?
Porto Alegre como retrato antecipado
Dados do IBGE mostram que, em 2022, o Brasil passou a ter mais pessoas com 65 anos ou mais do que crianças de até cinco anos. No Rio Grande do Sul, esse processo ocorre de forma ainda mais intensa. A taxa de fecundidade nacional está em 1,57 filho por mulher, abaixo dos 2,1 necessários para reposição populacional, enquanto a expectativa de vida gira em torno de 77 anos.
O economista Aod Cunha avalia que o país atravessa uma transição demográfica acelerada. Segundo ele, o chamado bônus demográfico, período em que há maior proporção de pessoas em idade produtiva, está chegando ao fim. Com menos jovens ingressando no mercado de trabalho e mais idosos demandando cuidados, o desafio econômico e social tende a se intensificar.
Além da queda na natalidade, fatores econômicos também influenciam o cenário. Muitos jovens deixam o estado em busca de oportunidades em outras regiões ou países, contribuindo para o envelhecimento relativo da população local.
O mito do cuidado garantido
Por décadas, prevaleceu a ideia de que ter filhos seria uma garantia de amparo na velhice. No entanto, famílias menores, migração geográfica e mudanças nas dinâmicas sociais mostram que esse modelo não é mais suficiente para assegurar suporte contínuo.
A psicanalista Camila Camaratta afirma que o cuidado na maturidade precisa ser pensado em rede, com políticas públicas estruturadas e vínculos que ultrapassem o modelo familiar tradicional. O aumento de idosos vivendo sozinhos evidencia a necessidade de novas formas de apoio comunitário e institucional.
Aspectos subjetivos da longevidade
O envelhecimento também envolve dimensões emocionais e psicológicas. A psicanálise discute o impacto da longevidade sobre a percepção do tempo, das perdas e das transformações pessoais. Especialistas apontam que a maturidade não é apenas um processo biológico, mas também psíquico, exigindo elaboração de mudanças e reconstrução de projetos de vida.
O filósofo Byung-Chul Han, na obra Sociedade do Cansaço, analisa como a lógica produtivista tende a invisibilizar etapas da vida que não estão centradas no desempenho. Nesse contexto, idosos podem se sentir excluídos de uma dinâmica social que valoriza apenas a produtividade econômica.
Desafios estruturais e sociais
A transição demográfica impõe demandas para sistemas de saúde, previdência e assistência social. O crescimento do número de idosos vivendo sozinhos amplia a necessidade de políticas voltadas à moradia, mobilidade urbana, acessibilidade e serviços de cuidado de longo prazo.
Especialistas destacam que planejar o envelhecimento deve deixar de ser uma decisão individual e passar a integrar o debate público. A criação de redes comunitárias, o fortalecimento de políticas públicas e a ampliação do acesso a serviços especializados são apontados como medidas essenciais para enfrentar o novo perfil demográfico do país.
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