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Responsabilidade Social • 10:26h • 10 de dezembro de 2025

Racismo religioso: 76% dos terreiros no Brasil sofreram violências

Dado consta de pesquisa sobre racismo contra povos de axé

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Os relatos mais comuns incluem agressão verbal, xingamentos, ataques diretos e abordagem policial discriminatória. Essas situações ocorreram pelo menos uma vez em dois anos.
Os relatos mais comuns incluem agressão verbal, xingamentos, ataques diretos e abordagem policial discriminatória. Essas situações ocorreram pelo menos uma vez em dois anos.

A comunidade do terreiro de candomblé Ile Ase Iya Osun, em Aracaju, precisou se mobilizar rapidamente há quase dois meses após o templo ser invadido e depredado. Objetos como geladeira, fogão e máquina de costura foram furtados, e itens sagrados acabaram destruídos e profanados.

Mais recentemente, em novembro, um simples desenho infantil representando a orixá Iansã levou policiais armados a intimidar a direção de uma escola pública em São Paulo, depois que o pai de uma aluna se incomodou com a atividade.

Esses episódios são exemplos de racismo religioso, conceito que busca evidenciar o componente racial da violência contra religiões de matriz africana — algo que vai muito além da intolerância religiosa tradicionalmente reconhecida. Para entender melhor esse cenário, foi realizada em 2025 a pesquisa Respeite o meu terreiro.

O estudo ouviu religiosos de 511 terreiros e revelou que 80% deles sofreram racismo religioso. As denúncias mais frequentes envolvem agressões verbais, xingamentos, ataques diretos e abordagens policiais discriminatórias. Em dois anos, 76% das casas religiosas relataram diferentes formas de violência, e 74% sofreram ameaças, depredações ou destruição — como ocorreu com o Ile Ase Iya Osun.

A violência também acontece no ambiente digital: 52% dos terreiros afirmaram ter sofrido assédio ou ataques racistas na internet. A maioria mantém perfis nas redes sociais para divulgar suas atividades, o que os deixa mais expostos a esse tipo de ação.

Mesmo diante desse cenário, apenas uma pequena parcela das vítimas buscou ajuda policial: menos de três em cada dez terreiros registraram boletim de ocorrência.

Idealizada pela Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro) e pelo terreiro Ilê Omolu Oxum, com apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a pesquisa foi apresentada na ONU. No estudo, Mãe Nilce, responsável pelo levantamento, lembra que, apesar dos avanços, terreiros continuam sendo invadidos, destruídos e seus líderes assassinados “apenas por fazerem parte de uma religião não cristã”.

Ela ressalta que, se no passado as autoridades policiais eram os principais algozes, hoje muitos ataques são promovidos por grupos religiosos — frequentemente pentecostais — e, em alguns casos, associados ao narcotráfico e às milícias. Para ela, políticas públicas mais eficazes e maior conscientização social são fundamentais. Segundo os pesquisadores, só o respeito às práticas dessas comunidades poderá garantir seus direitos.

A pesquisa Respeite o meu terreiro é bienal e busca mapear a violência motivada por racismo religioso contra comunidades afro-religiosas, além de identificar suas formas de resistência.

No Brasil, o racismo religioso é crime, punido com pena de dois a cinco anos de prisão ou multa. Em caso de ocorrência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo 190. Também é possível registrar denúncias em delegacias ou de forma anônima pelo Disque 100.

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