Responsabilidade Social • 19:28h • 02 de junho de 2026
Redes sociais e “machosfera” ampliam preocupação com violência de gênero entre jovens
Especialista aponta oito medidas para combater agressões, misoginia e exclusão de meninas no ambiente escolar desde a infância
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Tamer Comunicação | Foto: Âncora1
A violência de gênero dentro das escolas vai muito além de episódios explícitos de agressão e pode começar em situações consideradas comuns no cotidiano estudantil. A avaliação é da professora Márcia Pereira, doutora em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, que defende ações permanentes de conscientização, revisão pedagógica e fortalecimento do protagonismo feminino como formas de enfrentar comportamentos violentos e discriminatórios entre estudantes.
O debate ganhou ainda mais espaço após pesquisas e produções recentes apontarem o crescimento de discursos misóginos entre adolescentes, especialmente nas redes sociais e em comunidades digitais conhecidas como “machosfera”, ambiente virtual onde circulam conteúdos de hostilidade contra mulheres.
Segundo Márcia Pereira, o problema não pode ser tratado apenas com palestras pontuais ou ações isoladas dentro das escolas. Para ela, o enfrentamento precisa acontecer diariamente, envolvendo linguagem, convivência, relações sociais e cultura escolar.
Meninas ainda ocupam espaços menores dentro das escolas
Um dos exemplos citados pela especialista aparece no estudo “Girls Just Wanna Have Fun”, divulgado em 2025 pela organização Perkins&Will. A pesquisa identificou que, em muitos ambientes escolares, os meninos ocupam as áreas centrais de convivência e lazer, enquanto as meninas acabam restritas às laterais e espaços menores.
Para a educadora, esse comportamento ajuda a revelar como desigualdades de gênero continuam sendo reproduzidas desde cedo dentro do ambiente escolar.
Ela afirma que o avanço feminino em diferentes espaços sociais passou a gerar reações mais agressivas de grupos masculinos, cenário que ganhou ainda mais visibilidade com o crescimento de conteúdos misóginos nas redes sociais e o aumento do engajamento desse tipo de discurso entre adolescentes.
Oito propostas para enfrentar violência de gênero
Entre as medidas defendidas pela professora estão ações voltadas à educação infantil, formação de professores, revisão de materiais didáticos e fortalecimento de ambientes seguros para meninas dentro das escolas.
A especialista também propõe que as unidades de ensino estimulem maior participação feminina em grêmios estudantis, esportes, atividades culturais, cursos técnicos e áreas ligadas à tecnologia.
Outro ponto considerado importante é o desenvolvimento de campanhas permanentes de conscientização e projetos pedagógicos que incentivem respeito, convivência e protagonismo estudantil.
Márcia também destaca a necessidade de envolver famílias e comunidade escolar nas discussões sobre violência de gênero e convivência entre adolescentes.
Redes sociais ampliam preocupação entre educadores
A discussão ganhou força nos últimos meses após o lançamento de produções audiovisuais que abordam o impacto de conteúdos misóginos sobre adolescentes. Entre elas está o documentário “Por Dentro da Machosfera”, da Netflix, além da série “Adolescência”, que retrata a influência de discursos extremistas sobre jovens.
Segundo a professora, o recrutamento de adolescentes por grupos que disseminam ódio contra mulheres exige que escolas e famílias estejam mais preparadas para identificar mudanças de comportamento e fortalecer espaços de diálogo.
ECA Digital amplia debate sobre proteção online
Outro tema citado pela especialista é a regulamentação do chamado ECA Digital, que amplia medidas de proteção para crianças e adolescentes no ambiente virtual.
As novas diretrizes estabelecem responsabilidades para plataformas digitais diante da circulação de conteúdos violentos e reforçam mecanismos de proteção para menores nas redes sociais.
Para Márcia, o desafio agora é fazer com que essas discussões cheguem de forma prática ao cotidiano escolar, permitindo que professores e equipes pedagógicas consigam trabalhar o tema de maneira contínua e conectada à realidade dos estudantes.
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