Responsabilidade Social • 10:07h • 04 de julho de 2026
Relatório aponta alta nas mortes em ações policiais em 2025 e maioria das vítimas é negra e jovem
Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança mostra aumento de 6,4% nas mortes decorrentes de intervenções policiais em nove estados; 86,3% das vítimas eram negras
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
As mortes decorrentes de ações policiais aumentaram 6,4% em 2025 nos nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança. Ao todo, foram registrados 4.330 óbitos, contra 4.068 no ano anterior. Desse total, 3.104 vítimas, o equivalente a 86,3%, eram negras (pretas ou pardas).
Os dados fazem parte da 7ª edição do relatório Pele Alvo – entre Racismo e Letalidade, o Amanhã, elaborado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC). O levantamento reúne informações das secretarias de Segurança Pública do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
O estudo também mostra que a maioria das vítimas era jovem. Cerca de 64,8% dos mortos tinham até 29 anos de idade, incluindo 310 crianças e adolescentes.
Segundo os pesquisadores, pessoas negras têm, em média, quatro vezes mais chances de morrer em ações policiais do que pessoas brancas. Em Pernambuco, esse risco é 11 vezes maior, enquanto no Rio de Janeiro chega a ser seis vezes superior.
Estados registram recordes e especialistas apontam desafios
O relatório destaca que, apesar das mudanças na dinâmica da violência no país, o perfil das vítimas permanece praticamente inalterado ao longo dos anos: homens, jovens e negros seguem sendo os principais atingidos.
Entre os estados analisados, Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo registraram, em 2025, os maiores números de mortes por intervenção policial desde o início da série histórica do estudo, em 2019. O Maranhão apresentou o maior crescimento proporcional, com alta de 86,8% em relação ao ano anterior. Os pesquisadores atribuem parte desse aumento à expansão de facções criminosas para o interior do estado e às disputas por rotas do tráfico.
Na Bahia, apesar da redução em relação a 2024, o estado contabilizou mortes decorrentes de ações policiais em 346 dos 365 dias do ano. Pernambuco registrou aumento de 30,8%, enquanto Pará e São Paulo tiveram altas de 12,3% e 2,3%, respectivamente. O Amazonas manteve estabilidade, e o Piauí foi o único estado a apresentar queda, de 16,7%.
Outro ponto apontado pelo levantamento é a deficiência na coleta de informações sobre raça e cor das vítimas em alguns estados, especialmente Maranhão e Ceará. Mesmo com avanços recentes, os pesquisadores afirmam que a falta de dados completos dificulta análises mais precisas sobre o impacto da letalidade policial na população negra.
O relatório também relaciona o avanço de facções criminosas, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), ao aumento da violência em estados do Norte e Nordeste.
Procuradas, as secretarias de Segurança Pública dos nove estados foram convidadas a comentar os dados. Pernambuco informou que as operações seguem protocolos técnicos e legais voltados à preservação da vida, que todas as ocorrências com mortes são apuradas pela Corregedoria e que investe continuamente na capacitação dos agentes e no aprimoramento das ações de inteligência.
Já o Governo do Rio de Janeiro afirmou que, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), as mortes por intervenção de agentes do Estado caíram 12% entre janeiro e maio de 2026 na comparação com o mesmo período do ano anterior, alcançando o menor índice para o período desde 2014. A pasta ressaltou que as ações policiais são planejadas e que os confrontos decorrem da resistência de grupos criminosos. Os demais estados não haviam se manifestado até a divulgação do relatório.
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